Hernâni Matos

Inteiros Postais de Portugal

INTEIROS POSTAIS - A MÃE DE TODAS AS CLASSES

Hernâni Matos

(artigo publicado  no nº 2 da "Convenção Filatélica" - Março de 2002)

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INTEIROS POSTAIS E HISTÓRIA POSTAL

Quis o Deus Acaso que num pequeno lote de correspondência que me foi oferecida por mão amiga, viesse incluído um bilhete postal (fig. 4) tipo “Ceres”, de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça, com a particularidade de ter sido  processado durante o período da Greve dos Correios de 1920.

fig. 4 - Bilhete postal da emissão “Ceres”, taxa de 2 centavos (ocre), destinado ao serviço nacional. Cartolina camurça. Particularidade de ter sido processado durante o período da Greve dos Correios de 1920. Circulação descrita no texto do artigo:  LISBOA   3.3.1920  ®  PORTALEGRE ?  ® ELVAS ? ® ESTREMOZ  26.3.1920.

O referido bilhete postal foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D. Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (1º dia da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, tendo recebido a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central. A mensagem do bilhete postal (fig. 5) é a seguinte:

“Recebemos a sua estimada carta e as amostras.

Fomos  a  casa  de  sua  Ex.ma  Cunhada  perguntar

por  seu  Ex.mo  Marido  e disseram-nos que já não

estava.  E  como  veio a greve do c. de ferro, temos

estado à espera.  Mas  como hoje nos disseram que

seguia  o  correio  por Portalegre, rogo-lhe a fineza

de  dizer  o  que  deseja  que  se  faça.

Os  nossos  cumprimentos e creiam-nos sempre ao

seu dispor.

Sua amiga e muito obrigada

 M.ª do Carmo S. de Araujo"

fig. 5 -  Verso do bilhete postal da fig. 4, revelando a missiva transcrita no texto do artigo.

O bilhete postal apresenta a marca de chegada a Estremoz [1] no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição! Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete postal.

Está ainda por investigar o modo como foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ, a mala postal que transportava o bilhete postal que vimos referindo. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

Fazendo fé na mensagem do bilhete postal, é de concluir que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões:

- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens e Portalegre;

- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.

Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete postal entre Portalegre e Elvas. Provavelmente a Ambulância Postal que o trouxe de Lisboa e que deverá ter furado a greve. E no resto do trajecto quem conduziu a mala postal onde ia o bilhete postal? Militares? Guarda Republicana? Particulares? Não sei. É um assunto que procurarei investigar e que se for bem sucedido, divulgarei. Posso, porém, desde já assegurar que de Elvas para Estremoz, o bilhete postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que em 1920 não existia o ramal Elvas-Estremoz, assim como também não existia o ramal Portalegre-Estremoz. Para além disso, só tenho uma certeza: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

O tema de História Postal subjacente ao Inteiro Postal aqui dissecado é a greve dos correios de 1920. Outros inteiros postais da nossa colecção referem-se a temas de História Postal como: correio militar, censuras postais, correio porteado, correio acidentado, correio ferroviário, correio marítimo, etc., mostrando quão vastas são as inter-relações dos Inteiros Postais com a História Postal.


[1] COPRº E TELº / ESTREMOZ. A marca é do tipo de 1880 e batida a preto. Tem a particularidade do primeiro R de CORRº estar partido, lendo-se COPRº em vez de CORRº. Aquela letra aparece já partida em correspondência datada de 1912.

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