AS "PEÇAS" D'ARQUIVO

Américo Mascarenhas Pereira

In A FILATELIA PORTUGUESA, Porto, nº 6, Dezembro  de 1985

- A opção é sua.

- !!!???

- É como lhe digo, a opção é sua: ou paga e não bufa ou bufa e não paga.

- Não percebo.

- É sempre assim. Quando não nos interessa, não percebemos, não podemos ou, simplesmente, não queremos poder perceber. Já notou que m fumador/bebedor (ficando por aqui) quando se lhe aponta uma possibilidade de eliminar o vício, nos atira à cara com o exemplo do amigo que, isto e mais aquilo, pois e vai daí, esticou o pernil?

- Mais ou menos...mas eu...

- Pois não, mas é um inteirista (ou coisa quejanda) crente em “milagres” que lhe custam (ou podem custar I-NU-TIL-MEN-TE) uns bons milhares se, claro, claríssimo, como o raio em noite troventa, não acatar os “tais” conselhos, por muito disparatados que lhe possam parecer.

- 'tá bem ! 'tá bem ! Quais milagres?

-  Dizem que as maiores cegos são os gananciosos e...

-  Bom, aí... desculpe-me, seu Algarvio, mas não lhe reconheço valor...

- Já o esperava, meu caro e, tanto assim que tive o cuidado de lhe apresentar o exemplo do fumador/bêbado... só que entrou no grupo dos cegos (sem ofensa aos mesmos) e, logicamente, não quer ver.

- Bolas, seu Algarvio d'uma cana, não...

- Duma cana não... da Mexilhoeira da Carregação, sim!?

- Da quê ?

-  Deixe lá, fica para depois, já que nem todos são obrigados a saber de corografia... Não se irrite ! Eu explico, ainda que não vá agradar a Gregos ou Troianos.

- E que tenho a ver com isso?

- Lá iremos. Para já, vamos considerá-lo Grego, prestes a “levar” com o “seu cavalo de Tróia” na bolsa e, reflexamente, no alto do toutiço.

- Protesto! Melhor...chiça! não percebo patavina.

- Pois ó, por isso mesmo vai entrar, que nem um “andor”, se não o meto na ordem ou Ihe abro os olhos.

- Certo, mas deixe-se de conversas fiadas e vamos ao que interessa: a tal lição, acerca dos “milagres”, que está ansioso por despejar.

- Então tome lá nota; depois não diga que não o avisei... Ná! Boca fechada, que o Algarvio sou eu. Oiça e não interrompa...

- Certo! Fale! Pode dar início à sua “circunferência”...tem a palavra o...

- ...raio que o parta! Seu coleccionador de meia tigela! Se quiser tomar tento, tome; se não quiser... lixe-se, que o dinheiro é seu e a mim tanto me faz... Fora eu Júri e veria como lhe trataria do pelo...

- E categoria para ser Jurado, onde está ela?

- Querem ver que eu ainda mato este... pois, até tem razão, (os incompetentes são os que mais criticam, não os melhores críticos mas afinal, posso ou não falar? Acabemos com as gracinhas e os piropos e vamos ao que interessa. Ao fim e ao cabo, vocês, os Coleccionadores, são os prejudicados, as vítimas, e mais ninguém.

- May I ?

- Miai para aí à vontade. Quem o impede? Seja rápido! Temos de ir ao “five o'clock coffee”, não esqueça... até porque, hoje, não sou a pagar.

- Afinal qual é o assunto básico da nossa “maluca” conversa, que tanto parece incomodá-lo, e vai dar aso à sua peroração?

- Quem perora é a sua prima, fixe bem isso, seu inhenho. Se quiser oiça, se não quiser... BOA NOU-U-TE! Eu não...

- Pronto! O Algarvio já está em ponto de rebuçado...

- Pois, daqueles da Régua... O assunto, como muito bem diz, refere-se aos pseudo-inteiros Postais, vendidos a bons preços, SÓ PORQUE NÃO TÊM SELO IMPRESSO...

-  Ora até que enfim. Gosto! Continue, por favor.

-  E eu é que sou o Algarvio... irra! Bem, mas como lhe disse, vou falar, se me permitir, dos tais pseudo-inteiros. Não ! Baixe a mãozinha e não interrompa, que a coisa é mais séria do que pode idealizar. Não! Deixe-me falar, ou então o café vai esfriar. Já notou o paradoxo? Um Inteiro Postal, é isso, porque está preparado de tal forma que, nos serviços doa CTT, não necessita de qualquer outra taxa mais, dentro da normalidade, logo, os sem selo... não o são. O engraçado reside no facto de “tais falhas” acontecerem, maioritariamente, nos coloridos, sem que signifique qualquer mistério. É que, depois de aprovados os desenhos, as aguarelas ou soja lá o que for, a Empresa adjudicatora da obra recebe os ditos, das “mãos” dos CTT e trata da sua fazedura. Para isso, e porque o pintor/aguarelista/desenhador se esteve nas tintas para as bases, criando os seus próprios tons, o seu Técnico-Colorista (admitindo que tem) terá de se servir da sua perícia para, em combinações várias, obter tudo aquilo que lhe foi entregue e será exigido na execução da encomenda, como uma obra de arte que é. (Uma Litografia, que se preze, faz arte... não se limita a imprimir). Acertada a “paleta do autor”, depois de ensaios, combinações (e não só) feitas em papel vulgar mas mais propriamente na cartolina destinada aos postais (muitas das vezes em ambas as faces) é executada a encomenda. Na execução “nascem todos os milagres”.

Não será necessariamente obrigatório ser-se técnico ou chefe, dessa empresa, para aceitar a tiragem de mais uns X%, pois há que prever inutilizações, amostras, arquivo, etc. Esse arquivo, autêntico repositório de arte, e tão mal compreendido pelo bicho homem face à necessidade de espaço, é queimado/inutilizado anos depois... para uns 25, para outros nunca (felizmente).

- Bonito! Gostei! Gostámos mas...

- Ainda não acabei... feche a “rádio”...

- Este tipo é mesmo Mascarenhas de todo...continue, Excelência!

- Com muito gosto. Como ia dizendo, os arquivos existem (ou existiam) e as milagreiros aparecem; os tais espertalhões que, ao aperceberem-se da ingenuidade (só?) dos Coleccionadores (por andarem com eles ou possuírem no seu seio um “bufo”) “metem a mão” naquilo que não lhes pertence. Depois... há sempre um “entendido” a “descobri-los” e a “sacrificar-se”, dando-os à “luz do Coleccionador”, por uns bons escudos. O “milagre” deu-se e UMA NOVA “PEÇA” SURGIU pa...

- Alto e pára o baile, corno você diz...

- Pari... como diz o meu conterrâneo... “falainde”... como dizeis vós outros.

- Surgiu uma nova “peça” mas, pelos vistos, ainda há lá um grande arsenal em potência, não?

- Espertinho ! Pois é isso mesmo...é só meter a mão, de novo escolher, trazer ao tal “entendido” e...

- Vigaristas' Exploradores da crendice...

- Calma aí ! Olhe lá que essa abóbora pode rebentar, A coisa não é tão má assim. Compram os que compram; cada um faz o seu negócio e o resto são palavras. Eles não têm culpa. Os Coleccionadores, não gostam de perder tempo. Querem tudo “feito à sua medida”, têm medo do seu concorrente e não procuram saber das razões dos “milagres”. Se calhar até pensam que os selos são impressos simultaneamente... razão da atribuição do valor a tais “peças”...(???!!!)

- Agora entendo a história inicial da opção.

- Belo ! Opto por um bom café, vamos a isso.

- Bolas ! Vou passar a bufar e a não pagar.

Moscavide, 25 de Outubro de 1985.

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