A  BARRÍSTICA DE ESTREMOZ

 NOS INTEIROS POSTAIS

Hernâni António Carmelo de Matos

Não é só através dos selos e das marcas postais que a Filatelia está ao serviço da Cultura. Também outras fórmulas de franquia como são os inteiros postais, são veículos de acção cultural. Senão vejamos. Em Dezembro de 1942, os CTT emitiram uma série de bilhete postais de Boas Festas com selo impresso – vulgo inteiros postais. Para motivo da ilustração do verso e do anverso do bilhete postal nº 42, a artista Laura Costa escolheu os presépios de Estremoz. Temos na nossa colecção um exemplar enviado no dia 24 de Dezembro de 1942 – véspera de Natal -  por Sá Lemos ao  Dr. Marques Crespo.

Para quem não saiba, José Maria de Sá Lemos, foi escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando chegou a Estremoz, o Artesanato estava em plena decadência e aqui teve o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e de Cantaria e com o apoio de Ti Ana das Peles e de Mariano da Conceição estimulou a recuperação dos bonecos que estavam em extinção. Espírito humanista, de rara sensibilidade artística, a ele se deve o facto de os bonecos serem ainda hoje um dos nossos ex - líbris, conhecidos aquém e além fronteiras.

 Sá Lemos ao impulsionar o renascimento dos bonecos de Estremoz, pô-los na ordem do dia e entre eles os pastores, as ceifeiras, os músicos, os peraltas, os sécias, os apitos e naturalmente as figuras de presépio. Não é assim de admirar que a artista Laura Costa tenha escolhido os bonecos de Estremoz, como motivo de ilustração de bilhetes-postais de Boas Festas da emissão de 1942.

Quanto ao Dr. José Lourenço Marques Crespo, foi Presidente da Câmara Municipal de Estremoz nos anos 20 e pessoa de rara sensibilidade para as questões do Património, do Artesanato e da Cultura em geral.

No seu livro “Barros de Estremoz” dado à estampa em 1964 diz Azinhal Abelho: “Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia”. Parafraseando Azinhal Abelho é caso para dizer que há muito tinha chegado a altura de Estremoz pagar a Sá Lemos e muitos outros que prestaram serviços relevantes ao Município. Pois bem, a Assembleia Municipal de Estremoz [1] na sua sessão de 19 de Setembro de 1997, recomendou à Câmara Municipal de Estremoz, que perpetuasse a memória deste estremocense pelo coração, numa futura atribuição de nomes a ruas da cidade.

Também em Dezembro de 1944, os C.T.T. emitiram uma série de bilhete postais de propaganda, desenhada por Manuel Lapa. No nº 104 AG e sob a designação ARTE POPULAR, lá figura novamente um presépio de Estremoz, daqueles cuja revitalização se deve a Sá Lemos.

Os bonecos de Estremoz estão também perpetuados no cancioneiro popular alentejano:

S’ê quesesse amar bonecos

Mandav’ ôs  vir de Estremôris [2]

Vergonha  da minha cara

S’ê’contigo tinha amôris. [3]

mmmmm

Mercado de Barros em Estremoz - Ilustração de Azinhal Abelho para o seu livro "Barros de Estremoz", Edições Panorama, Lisboa, 1964.

Da venda de bonecos de Estremoz na feira, nos fala João Falcato [4]:

“A feira alentejana é um mar de pitoresco. E de abastança também. Tem de tudo e para todos.  Até para os artistas ou que, pelo menos, de artistas têm olhos e alma.

Sobre o largo passeio que separa o local da feira da estrada, há sempre multidão de figuras policrómicas e representativas duma originalidade que, sendo viva, é sui-generis: o pastor, o homem do leite, a ceifeira, o cavaleiro, o abegão, a mulher que enche os chouriços, o lavrador, a fiandeira, e até os reis magos, são as personagens estranhas que nos dias de feira povoam as bermas do passeio do Rossio. E tudo isto bonecos, que só não são rudes e primitivos por as mãos que moldaram o seu barro terem em si o jeito divino das criação.

Com um pedaço de barro da terra, a gama das cores opostas, e habilidade, muita habilidade, daquela que animava os dedos de Tia’Ana das Peles, dá o artista nato, que é vulgar nestas paragens, vida duma riqueza de cor e de expressão notáveis a estas figurinhas que hoje são disputadas para as estantes mais exigentes.

O barro que materializa estas criações artísticas é o mesmo que se emprega nas bilhas que conserva em nossa casa a água fresca e que alegra as nossas mesas com a mancha rubra em que se reproduzem os elementos vegetais da região.”

[1]

Por proposta do Presidente da Direcção da A.F.A.

[2]

Estremoz.

[3]

Odemira - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo – 2º ed. (2 vol.), Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1980.

[4]

João Falcato in Elucidário do Alentejo, Coimbra Editora, Lisboa, 1953.

MÚSICA: NATAL DE ÉVORA (Popular)

Ficheiro midi de Fernando de Brito Vintém in MIDI PORTUGAL:

http://www.midiportugal.com

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