A FILATELIA Ao SERVIÇo Da Cultura, DO TURISMO E DA OCUPAÇÃo DE TEMPOS LIVRES

Comunicação de

 Hernâni António Carmelo de Matos,

Presidente da Direcção da Associação Filatélica Alentejana

ao IX Congresso Sobre O Alentejo

Estremoz, 27 de Setembro de 1997

Em primeiro lugar, quero saudar desta tribuna o heróico e combativo povo alentejano que desde períodos ancestrais vem travando uma luta continuada pelo pão e pela terra. Luta que hoje aqui neste 9º Congresso Sobre o Alentejo, assume a forma duma batalha pelo desenvolvimento e pela regionalização.

Em segundo lugar, quero saudar todos quantos aqui estão e que tendo deixado as pantufas em casa, vieram não só confrontar ideias, como vectores de regionalização e linhas de força de desenvolvimento. Quero saudar vivamente todos quantos apesar das diferenças ideológicas ou outras, se juntaram aqui para através da unidade na acção, terçarem armas pela sua dama – a Região Alentejo.  O Alentejo de Catarina, mas também o Alentejo de Florbela. O Alentejo de Manuel da Fonseca, mas também o Alentejo do Conde de Monsaraz. O Alentejo é e será uma região, mas é também um estado de espírito e é sobretudo uma forma de estarmos e sermos solidários.

Desenvolvimento não é só desenvolvimento económico, é também desenvolvimento Cultural, visando a promoção da Cultura e o aumento da sua democraticidade, permitindo o livre usufruto das mais diversas manifestações de Cultura, por cada vez mais amplos sectores da população.

Uma das facetas da Cultura é a Cultura filatélica dinamizada por um segmento de população que embora não seja numericamente importante, se impõe pela sua dinâmica envolvente e pela projecção das actividades desenvolvidas.

Para falarmos de Filatelia temos necessidade de primeiramente falar de Correio.

A criação do Correio em Portugal remonta ao século XVI, quando D. Manuel I, a 6 de Novembro de 1520, encontrando-se em Évora, nomeou Luís Homem para o cargo de Correio-Mor e o provimento de Mestre de Posta.

A Administração do Correio esteve na mão de particulares até ao século XVIII. Foi por alvará de 16 de Março de 1797 que foi extinto o cargo de Correio-Mor, voltando o Correio à Administração do Estado, ficando a Secretaria de Estado da Repartição dos Negócios Estrangeiros com o cargo de Administração das Postas, Correios e Diligências de Terra e Mar. Porém, a exploração continuou a reger-se pelos regulamentos em vigor até que pudesse ser publicado novo regulamento, o que se verificou em 1 de Abril de 1799. A partir daqui, as cartas passam a receber marcas postais indicativas do porte a pagar pelo destinatário, bem como marcas nominais da localidade de partida e de chegada.

Por Decreto de 27 de Outubro de 1852 foram estabelecidas as bases de uma nova Reforma Postal, pela qual foi introduzido a partir de 1 de Julho de 1853, o uso dos selos postais adesivos como meio de pagamento prévio do porte.

A Filatelia ou coleccionismo de selos e demais fórmulas e marcas postais surgiu praticamente com a emissão dos primeiros selos postais em Inglaterra, em 1840. No nosso país, os selos postais foram introduzidos no reinado de D. Maria II, em 1853 e, já no século passado havia filatelistas em Portugal. Actualmente, os filatelistas portugueses agrupam-se em clubes que os representam e defendem os seus interesses, como é o caso da Associação Filatélica Alentejana (A.F.A.), sediada em Estremoz.

Existe além disso uma estrutura que aglutina, orienta e disciplina os clubes filatélicos. É  a Federação Portuguesa de Filatelia, na qual estamos federados com o nº 93, a qual por sua vez está federada na F.I.P. - Federação Internacional de Filatelia, que supervisiona toda a Filatelia mundial.

A Filatelia engloba várias modalidades ou classes, a saber: Filatelia Tradicional, Filatelia Temática, Aero-Filatelia, História Postal, Inteiros Postais, Maximafilia, Filatelia Juvenil e Literatura Filatélica. Cada uma destas classes é um mundo, com a sua estética, o seu sistema de valores, os seus regulamentos, as suas jóias, os seus mitos, os seus cultores e também os seus detractores.

A Associação Filatélica Alentejana vai em 1998 comemorar o seu 15º aniversário. Se catorze anos pesam muito na vida de uma pessoa, no caso de uma instituição esse peso acresce pela responsabilidade que advém da sua função social. No caso da A.F.A. essa função está sintetizada nos objectivos gerais há muito definidos:

·   Contribuir para a animação Cultural da cidade de Estremoz; 

·   Divulgar a Filatelia, muito em especial entre as camadas juvenis;

·   Desenvolver a Filatelia, local e regionalmente;

A A.F.A. é hoje uma colectividade prestigiada a nível local, regional e nacional. Este prestígio é resultante da qualidade e diversidade das actividades desenvolvidas em catorze anos de actividade filatélica ininterrupta, persistente e criativa, que nos permite fazer aqui um balanço do trabalho desenvolvido.

Em termos estatísticos as exposições realizadas foram as seguintes:        

  EXPOSIÇÕES REALIZADAS

 EM 1983 – 1997

CLASSE

Maximafilia

3

Filatelia

29

Coleccionismo

8

Cartofilia

2

Artes Plásticas

2

Exposições Documentais

2

TOTAL

46

 A intervenção activa da A.F.A.  como agente Cultural com uma acção pedagógica não se tem confinado exclusivamente à cidade de Estremoz, pois temos promovido mostras filatélicas noutras localidades: Vimieiro (1988), Vila Viçosa (1991) e Redondo (1993).

Visando atrair muito público às nossas realizações, temos procurado conferir uma forte componente lúdica às actividades desenvolvidas. Nessa perspectiva se inserem as iniciativas de reconstituição de transporte da mala postal por diferentes meios:

·       Correio por helicóptero: ÉVORA - ESTREMOZ (1988);

·       Correio a cavalo: VEIROS -ESTREMOZ (1989);

·       Correio por malaposta: S.DOMINGOS-ESTREMOZ (1990);

·       Correio por bicicleta: ÉVORA MONTE - ESTREMOZ (1991);

·       Correio por motorizada: ARCOS - ESTREMOZ (1993);

Graças à nossa acção, a marcofilia estremocense está mais rica. A nosso pedido, os Correios de Estremoz utilizaram trinta e um carimbos comemorativos, alusivos a monumentos, figuras ilustres, aspectos históricos ou etnográficos e ao artesanato concelhio. Igualmente utilizaram cinco marcas de trânsito para marcar a correspondência contida nas malas postais transportadas por aqueles meios.

Instituímos o "TROFÉU AFA" e o "PRÉMIO COMERCIANTE DO ANO", distinções desde sempre prestigiadas, visando distinguir anualmente um filatelista e um comerciante que pela sua acção tenham prestado serviços relevantes à Filatelia Portuguesa, contribuindo para o seu desenvolvimento em Portugal e no estrangeiro.

Editámos o "CORREIO DO ALENTEJO", do qual fizemos sair 6 números, quantitativo limitado pela sua dependência da publicidade, mas números sempre de  reconhecida qualidade, onde procurámos não só divulgar estudos filatélicos e as nossa actividades, como também as realizações Culturais e os valores patrimoniais da região onde estamos inseridos.

Decorridos que são catorze anos sobre o início das nossas actividades e sem querermos dormir à sombra de louros conquistados, sentimo-nos com a consciência do dever cumprido, na medida em que têm sido anual e sucessivamente atingidos desde sempre, os objectivos definidos.

O nosso trabalho é  revelador das potencialidades da Filatelia como eficaz agente ao serviço da Cultura, do Turismo e da Ocupação dos Tempos Livres. Trabalho florescido depois de Abril, fruto das ganas lúdicas e da consciência associativa dum pequeno mas significativo segmento de homens e mulheres desta terra transtagana. Trabalho que não teria sido possível  sem o apoio logístico e financeiro do poder local democrático, do qual as Câmaras Municipais de Estremoz, Évora e Beja são exemplos paradigmáticos que urge multiplicar. Daí a razão da nossa comunicação ao IX Congresso Sobre o Alentejo.

A Filatelia está sob múltiplos aspectos ao serviço da Cultura.

Os selos e demais fórmulas postais são realizações plásticas de alguns dos nossos maiores artistas plásticos. Caso do nosso conterrâneo, o prestigiado pintor Armando Alves, que inúmeras vezes tem sido convidado a ilustrar selos de correio, dos quais me permito destacar pela sua carga simbólica, a emissão 1º de Maio  - Dia do Trabalhador, posta em circulação a 30 de Abril de 1981. A Filatelia ao transpor uma obra de arte para os selos, contribui para a sua divulgação e para a possibilidade de uma maior partilha da mensagem que lhe está subjacente. Isto é, a Filatelia democratiza a obra de arte, tornando-a acessível sob outras formas junto dum público mais vasto, o qual na sua esmagadora maioria, nunca poderia doutra forma ter acesso à mesma.

Orgulhamo-nos ainda de a marcofilia comemorativa estremocense contar com um carimbo comemorativo da III Feira Exposição de Agricultura de 1985, que foi concebido pelo nosso conterrâneo e querido amigo, Armando Alves, carimbo esse que ilustra a utilização da Filatelia ao serviço da divulgação duma actividade económica.

Também o traço vigoroso do arquitecto João Paulo Ferrão criou um monte que nos permitiu editar um sobrescrito comemorativo do Salão Filatélico ESTREMOZ  87. Do desenho sobressaem as paredes caiadas de branco, a cor mais característica do Alentejo. Lá diz a quadra popular:

“Nas terras do Alentejo

é tudo tão asseado...

As casas e o coração,

sempre tudo anda lavado...”

Não estranhem aqui a quadra popular. É que entre nós, desde a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, que Poesia, Arte e Filatelia andam de mãos dadas. É o que mostra o sobrescrito comemorativo editado a propósito desse evento. Aí está o linóleo do Carlos Alberto Alves e a quadra ao gosto popular do António Simões, sempre pronto a responder à chamada:

“Barro incerto do presente

Vai moldar-te a mão do Povo

Vai dar-te forma diferente

P’ra que sejas barro novo!”

Mas não é só através dos selos e dos carimbos ou marcas postais que a Filatelia está ao serviço da Cultura. Também outras fórmulas de franquia como são os inteiros postais, são veículos de acção cultural. Senão vejamos. Em Dezembro de 1942, os CTT emitiram uma série de bilhete postais de Boas Festas com selo impresso – vulgo inteiros postais. Para motivo da ilustração do verso e do anverso do bilhete postal nº 42, a artista Laura Costa escolheu os presépios de Estremoz. Temos na nossa colecção um exemplar enviado no dia 24 de Dezembro de 1942 – véspera de natal -  por Sá Lemos ao  Dr. Marques Crespo.

Para quem não saiba, José Maria de Sá Lemos, foi escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes, director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando chegou a Estremoz, o artesanato estava em plena decadência e aqui teve o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e de Cantaria e com o apoio de Ti Ana das Peles e de Mariano da Conceição estimulou a recuperação dos bonecos que estavam em extinção. Espírito humanista, de rara sensibilidade artística, a ele se deve o facto de os bonecos serem ainda hoje um dos nossos ex - líbris, conhecidos aquém e além fronteiras.

 Sá Lemos ao impulsionar o renascimento dos bonecos de Estremoz, pô-los na ordem do dia e entre eles os pastores, as ceifeiras, os músicos, os peraltas, os sécias, os apitos e naturalmente as figuras de presépio. Não é assim de admirar que a artista Laura Costa tenha escolhido os bonecos de Estremoz, como motivo de ilustração de bilhete postais de Boas Festas da emissão de 1942.

Quanto ao Dr. José Lourenço Marques Crespo, foi Presidente da Câmara Municipal de Estremoz nos anos 20 e pessoa de rara sensibilidade para as questões do Património, do Artesanato e da Cultura em geral.

No seu livro “Barros de Estremoz” dado à estampa em 1964 diz Azinhal Abelho: “Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia”. Parafraseando Azinhal Abelho é caso para dizer que há muito tinha chegado a altura de Estremoz pagar a Sá Lemos e muitos outros que prestaram serviços relevantes ao Município. Pois bem, a Assembleia Municipal de Estremoz na sua sessão de 18 de Setembro do corrente ano de 1997, considerou que há figuras de estremocenses que por nascimento ou pelo coração, prestaram ao Município serviços que podem ser considerados excepcionais, pelo que se justifica plenamente a sua inclusão na toponímia local. Foi o caso entre outros de Sá Lemos. Assim, recomendou à Câmara Municipal de Estremoz, que perpetuasse a memória deste estremocense pelo coração, numa futura atribuição de nomes a ruas da cidade.

Também em Dezembro de 1944, os C.T.T. emitiram uma série de bilhete postais de propaganda, desenhada por Manuel Lapa e impressa em tons de cinzento esverdeado, voltada para a divulgação dos nossos valores patrimoniais. No nº 104 AG e sob a designação ARTE POPULAR, lá figuram novamente os bonecos de Estremoz, ou melhor um presépio de Estremoz, daqueles cuja revitalização se deve a Sá Lemos.

Permitam-me que conte também aqui e agora a história breve, mas rara, dum amigo que não coleccionava selos. Lembro-me de, ainda puto de liceu, o ter conhecido de boina basca na cabeça, montado na sua inseparável pasteleira. Lembro-me dele caixeiro da Tabaqueira e depois dono da sua própria Livraria e Papelaria ali na Rua 5 de Outubro, onde nos arranjava os livros proibidos pela censura fascista e que ele corajosamente nos vendia como quem semeia liberdade. Por isso, mais que simples loja era um espaço de convívio e de resistência.

Por essa época, há muito que calcorreava o Alentejo de lés a lés, sozinho ou com o Giacometti ou o Lopes Graça. E o que ele não fez! Além de artista plástico de mérito, ele foi arqueólogo amador e fez um levantamento etnográfico, sociológico e artístico, cuja dimensão está ainda por avaliar. Ele procedeu à recolha do genuíno artesanato alentejano, fez o levantamento fotográfico dos trabalhos do campo, a recolha de poesia popular e de tradições orais, as receitas da gastronomia popular alentejana, as entrevistas com os assalariados rurais, etc, etc. Ele soube desde sempre ir beber às raízes mais profundas do povo alentejano, que lhe deu a sua enorme sabedoria, a sua oralidade transbordante e uma enorme força de viver com a qual contagiava os que tinham o privilégio de com ele conviver. Pois é, estas pinceladas toscas pretendem retratar um amigo de excepção, que apesar da diversidade de tudo o que recolhera, gostava de sublinhar alto e bom som, que não era coleccionador. Apesar de tudo, tivera tempo para ser ajuntador, daqueles que fascinados pela beleza plástica da estampilhas postais, sempre arranjam tempo para as recortar da correspondência e as guardar religiosamente em qualquer caixa órfã de sapatos ou de camisas. Mas o Aníbal - que é do Aníbal que estou a falar - homem livre, sem peias nem no pensamento nem na acção, foi desde sempre solidário e um dia não soube resistir ao convite que eu lhe fiz para desenhar para a 3ª Feira de Artesanato, um carimbo comemorativo e um sobrescrito que ilustrassem a cantaria. E ele surgiu vigoroso e rigoroso com uma crítica contundente a um desenho oficial dos correios acerca da emissão “Escultores Portugueses” de 1971. É que o Aníbal, o homem dos cinco mil instrumentos mais um, tinha tirado o curso de canteiro e sabia com os calos das mãos que daquela forma não se consegue segurar o escopro, pois ao bater com a maceta, o escopro escorrega.

A Filatelia como veículo de Cultura permite, como vimos, o registo de muitos valores patrimoniais, mas também ajuda a perpetuar na nossa memória colectiva, as figuras públicas nas quais a comunidade se reconhece. Caso do Dr. José Sena, Presidente da Câmara e homem de Cultura, falecido prematuramente. Antes do fatal desenlace, tinhamo-lo convidado a  inaugurar uma exposição – a ele que achava curiosa esta coisa dos selos – embora parecesse nunca ter percebido muito bem, ele que sendo um homem de Cultura, era um homem de acção, o fascínio que o pequeno rectângulo gomado de papel exercia sobre nós.

A Filatelia que  para muitos é um passatempo e para outros um aforro, é também uma arte, uma ciência e um modo de fazer pesquisa histórica. Vejamos como ao serviço da Cultura, a Filatelia pode dar enorme contributo na reconstituição da História local. Quis o Deus Acaso que num pequeno lote de correspondência que nos foi oferecida por mão amiga, viesse incluído um bilhete postal do tipo "Ceres", de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça e que foi processado durante o período da Greve dos Correios de Março de 1920.

    O referido bilhete postal foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D. Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (véspera do início da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, recebendo a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central.

De salientar que a Greve dos Correios estava integrada no movimento grevista do funcionalismo público e visava lutar contra o aumento do custo de vida. Teve lugar sobretudo entre 4 e 20 de Março de 1920, mas nalguns locais – caso de Estremoz - ultrapassou este período.

A mensagem do bilhete postal é a seguinte:

"Recebemos a sua estimada carta e as amostras. Fomos a casa de sua Ex.ma Cunhada perguntar por seu Ex.mo Marido e disseram-nos que já não estava. E como veio a greve do c. de ferro, temos estado à espera. Mas como hoje nos disseram que seguia o correio por Portalegre, rogo-lhe a fineza de dizer o que deseja que se faça.

          Os nossos cumprimentos e creiam-nos sempre ao seu dispor.

Sua amiga e muito obrigada

M.ª do Carmo S. de Araujo"

 

O bilhete postal apresenta a marca de chegada a Estremoz no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição!

 Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10 556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete postal.

Está ainda por investigar o modo como é que a mala postal que transportava o bilhete postal foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

Fazendo fé na mensagem do bilhete postal, sabemos que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões:

- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens, Portalegre e Elvas;

- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.

Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete postal entre Elvas e Estremoz. Militares? Guarda Republicana? Recoveiros? Particulares ? Não sabemos. É um assunto que procuraremos investigar e que se formos bem sucedidos, divulgaremos. Podemos, porém, desde já assegurar que, de Elvas para Estremoz, o bilhete postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que nunca houve ligação ferroviária entre Elvas e Estremoz. Por outro lado, em 1920 não existia ainda o ramal Portalegre-Estremoz, que só foi inaugurado em 21 de Janeiro de 1949. Para além disso, só uma certeza temos: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

O interessante bilhete postal cujas marcas acabámos de descrever, levou-nos a investigar os aspectos assumidos pela Greve dos Correios em Estremoz, visando reconstituir a história local daquele período conturbado da nossa História Postal. Para o efeito socorremo-nos da imprensa local daquela época (os semanários "O Jornal de Estremoz" e "O Eco de Estremoz" ) e conseguimos fazer a cronologia da greve. Porém, a sua apresentação aqui ultrapassa o âmbito do presente painel. Sobre o assunto publicámos um trabalho no “Correio do Alentejo” nº 5 e dele não deixaremos de dar um resumo na versão integral escrita, da presente comunicação.

Ao serviço da Cultura, a Filatelia pode ser um auxiliar precioso do ensino e da educação. Ao longo da vida da nossa Associação tivemos oportunidade de conduzir visitas guiadas a alunos dos Ensino Primário, Preparatório e  Secundário acompanhados dos respectivos professores e tivemos oportunidade de avaliar o resultado dessas visitas relativamente à observação de colecções temáticas de História, Ciências Naturais e Pintura. Além disso as visitas guiadas permitem apontar marcos na História do Correio em Portugal, bem como falar de técnicas de gravura, de impressão, regras de coleccionismo, etc.

Em termos históricos a Filatelia regista as mudanças de regime, as guerras, a existência de censura militar ou política, a existência de impostos, etc.

Além de tudo o que se disse, a Filatelia é sobretudo uma forma de ser e de estar na vida, de viver e conviver, fazendo permanentemente novas amizades, constituindo por isso um factor de aproximação e de amizade entre os povos e promovendo também a imagem de Portugal no mundo.

De entre as suas virtualidades, além de ser uma forma salutar de ocupar os tempos livre e de ser um auxiliar precioso do Ensino e da Educação, é também um veículo de divulgação cultural, estética e científica, um método de terapêutica  ocupacional e um modo de incutir nas crianças e jovens, hábitos de asseio, organização e método. Em suma, a Filatelia é uma actividade formativa por excelência.

A Filatelia está também ao serviço do Turismo, pois os selos e demais fórmulas de franquia e marcas postais, permitem divulgar belezas paisagísticas, patrimónios e acontecimentos locais. Além disso, a Filatelia gera fluxos de pessoas que procuram visitar as exposições.

Quem pretenda iniciar-se na Filatelia deve procurar os conselhos dos clubes de Filatelia, como a nossa Associação. Deve adquirir ainda catálogos e literatura filatélica - livros, jornais e revistas - que formam e informam, bem como frequentar comerciantes filatélicos e visitar Mostras, Exposições e Salões Filatélicos. Depois disso é dar asas à imaginação e ao bom gosto e, abrir os cordões à bolsa, é claro !

De tudo o que vos tenho estado a dizer, ressalta que a Filatelia é um acto de Cultura. Hoje, como de há catorze anos a esta parte, a Filatelia em Estremoz está ao vosso dispor para ser fruída como deleite do espírito. Podeis e deveis assim visitar a Mostra de Filatelia Alentejana, patente ao público até amanhã, no Teatro Bernardim Ribeiro.

A terminar a minha comunicação, proponho à mesa que no relatório resumido deste painel seja incluída a seguinte proposta:

A Filatelia é uma actividade Cultural que pode funcionar como poderoso veículo ao serviço da Cultura, do Turismo e da ocupação de tempos livres. Às autarquias alentejanas poderá caber um papel importante no domínio da Filatelia, utilizando os seguintes instrumentos:

  • Proposta aos Serviços de Filatelia dos CTT até 30 de Março de cada ano, de temas e motivos regionais que na sua óptica devam fazer parte das emissões filatélicas do ano seguinte;

  • Aquisição aos CTT de carimbos comemorativos para associar a eventos em que a autarquia está envolvida;

  • Aquisição aos CTT de flâmulas publicitárias a funcionar em estações de correio de grandes cidades como Lisboa e Porto, a fim de promover iniciativas em que a autarquia está envolvida;

  • Apoio a iniciativas filatélicas na área da sua autarquia;

 

TENHO DITO!  

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