ESPAÑA 2006 - HISTÓRIAS DUM JURADO APRENDIZ

Por Hernâni Matos,

Jurado e Delegado FIP de Inteiros Postais da FPF

 

MÁLAGA, SALEROSA

Málaga, cidade plantada na costa sul de Espanha, mesmo em frente da Costa de Africa, a qual se avista em dias de grande visibilidade. Setecentos mil habitantes, uma Universidade, um Aeroporto e vinte Museus, um deles o Museu Picasso, Málaga foi terra natal de Pablo Ruiz, como também o foi de Salvador Dali e de Juán Miró. Três paletas, três modos de ver plástica e cromaticamente o Mundo, com um denominador comum – Málaga. Bendita a terra que tais génios deu ao Mundo e que tem património construído como o Teatro Romano, a Alcazaba, o Castelo de Gibralfaro, a Catedral ou o Mercado Central de Atarazanas.

Fundada pelos fenícios cerca de 1100 AC, colonizada pelos gregos, dominada sucessivamente pelos cartagineses, pelo romanos, pelos godos, pelos árabes e finalmente conquistada pelos católicos em 1489, Málaga foi ao longo dos séculos, ponto de encontro e intercâmbio de culturas, o que deixou vestígios visíveis no seu património cultural, nomeadamente no património construído.

Passagem natural para África, desde sempre desenvolveu um actividade comercial centrada no seu porto de mar.

Pois foi Málaga que com todas as suas potencialidades acolheu a Exposição Filatélica Mundial ESPAÑA 2006. Foi Málaga que com todo o seu “salero” me acolheu a mim, um português do meridião, mais precisamente um homem de Além-Tejo, com orgulho no sangue árabe que lhe corre nas veias.

Para Málaga viajei e de Málaga regressei, tendo como “compagnon de route”, o Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia, que há cerca de dois anos me apoiou na minha pretensão de me candidatar a Jurado FIP de Inteiros Postais, na perspectiva pessoal e colectiva de melhor poder servir a Filatelia Portuguesa.

TRABALHO DO JÚRI

O Júri da ESPAÑA 2006, reunido num Salão do Hotel NH Málaga, era constituído por 53 Jurados e 9 Jurados Aprendizes, apoiados por 3 Expertizadores e 2 Consultores Seniores. O Presidente do Júri foi Fernando Aranaz (Espanha), tendo como Vice-Presidentes: Raymond Todd (Austrália), Peter MacCann (Estados Unidos da América) e Eliau Weber (Israel) e, como Secretário, José Ramón Moreno (Espanha).

 

O Júri da ESPAÑA 2006.

 

A impressão que trouxe do trabalho do Júri, foi altamente positiva, pelo elevado grau de profissionalismo e disciplina em tudo do que me foi dado observar e participar, contrariamente ao que estamos habituados a observar muitas das vezes entre nós.

A FIP tem como instrumento de trabalho, um regulamento rígido de Jurados, que estabelece deveres e normas de procedimento, que apesar de serem conhecidos, foram relembrados logo no início dos trabalhos, através dum documento subscrito pelo Secretário do Júri.

 

José Ramóon Moreno, Secretário do Júri, dando directivas de trabalho aos Jurados.

 

A metodologia seguida no trabalho do Júri foi a seguinte:

-        Chamada de Jurados (roll call) no início e no final de cada jornada de trabalho;

-        Respeito pelos horários e metas pré-estabelecidas. Contacto frequente entre os chefes de equipa (team leaders) e o Secretário do Júri, para balanço permanente do progresso dos trabalhos de avaliação; 

-        Introdução de resultados preliminares num computador;

-        Afixação de resultados preliminares nas paredes da sala do Júri;

-        Discussão dos resultados e alterações dentro de cada equipa de trabalho;

-        Comunicação das alterações ao Secretário do Júri;

-        Estabelecimento das classificações definitivas até ao vermeil grande;

-    Apresentação de objecções às propostas de atribuição de ouro e ouro grande;

-    Resolução das objecções pelas equipas de trabalho;

-    Revisão das medalhas de ouro e ouro grande, pelos “team leaders”;

-        Comunicação das alterações ao Secretário do Júri;

-        Resolução de eventuais disputas;

-        Comunicação das alterações ao Secretário do Júri;

-        Apresentação do relatório sobre falsificações pelo porta-voz do grupo de Expertizadores ;

-        Estabelecimento das classificações definitivas de ouro e ouro grande;

-        Apresentação dos candidatos aos Grandes Prémios;

-        Votação dos Grandes Prémios;

-        Aprovação do relatório do Júri;

-        Encontro do Júri com os expositores;

O JÚRI DE INTEIROS POSTAIS

O Júri da Classe de Inteiros Postais era constituído por:

-        Stephen Schumann, Estados Unidos da América, Presidente da Comissão FIP de Inteiros Postais e “team leader”;

-        Michael Ho, Tawain, membro do Bureau da Comissão FIP de Inteiros Postais, em representação da FIAP; 

-        German Bascwhitz, Espanha;

-        José Manuel Rodrigues, Espanha, membro da Comissão FIP de Inteiros Postais;

-        Hernâni Matos, Portugal, Jurado Aprendiz, membro da Comissão FIP de Inteiros Postais;

 

Na sala do Júri, na 3ª fila, da esquerda para a direita, Hernâni Matos, Michael Ho, Stephen Schumann, José Manuel Rodrigues e German Bascwhitz.

 

Desde o início dos trabalhos que houve um elevado nível de comunicação entre todos os membros do Júri, utilizando-se como suporte verbal o inglês e o espanhol e, por vezes, o francês.

O “team leader”, suscitador de forte empatia e com grande capacidade de liderança, frente aos quadros questionava o restante Júri sobre os parciais a atribuir a cada participação. E após cada resposta, no caso de haver diferenças nas pontuações propostas individualmente, ele próprio procurava gerar consensos, o que quase sempre foi conseguido através do diálogo e da troca de argumentação. Surpreendeu-me agradavelmente pelo seu conhecimento experiente da filatelia de muitos países e do conhecimento detalhado de muitas das colecções expostas e da sua mais recente evolução. De resto, foi para mim gratificante, a interacção que tive o privilégio de ter com uma equipa fantástica, com a qual aprendi bastante em termos de avaliação, o que terá reflexos naturais no meu estilo de trabalho e no meu desempenho como Jurado do Quadro da Federação Portuguesa de Filatelia.

Como Jurado Aprendiz foi-me distribuída a tarefa de avaliar individualmente 4 participações, o que fiz tendo, de acordo com o Regulamento de Jurados Aprendizes, os resultados das minhas avaliações sido comparado pelo “team leader” com o dos restantes membros da equipa. Além disso, os meus conhecimentos gerais sobre a FIP, o GREX, o GREV e os SREV’s foram testados verbalmente pelo australiano Raymond Todd, Vice-Presidente da FIP, coordenador dos assuntos relativos a Inteiros Postais, que no final se despediu de mim, dizendo: “Congratulations!”. Posteriormente, o “team leader” elaborou um relatório sobre os resultados da avaliação a que fui submetido, o qual foi entregue a Raymond Todd que em reunião da Direcção da FIP, realizada em Málaga, o submeteu a aprovação, tendo eu sido aceite como Jurado FIP acreditado para a Classe de Inteiros Postais. É um facto que, em primeiro lugar, me regozija a nível pessoal, uma vez que eu fixara como meta atingir essa condição, numa perspectiva de, dentro do âmbito da minha intervenção, poder ao mais alto nível servir a Filatelia Portuguesa. Em segundo lugar, penso que é também uma honra para a Filatelia Portuguesa no seu todo e para a Federação Portuguesa de Filatelia, em particular, por ver reforçado o seu Quadro de Jurados FIP.

 

Hernâni Matos, num momento da avaliação, junto aos quadros (Cortesia de Pedro Vaz Pereira).

 

Numa hora que é de balanço, seria injusto não realçar, reconhecer e agradecer o apoio que, desde o momento da apresentação da minha candidatura a Jurado FIP há cerca de dois anos, me foi dado pelo Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia, que aparte eu possuir os requisitos exigidos pela candidatura, acreditou em mim e me incentivou ainda mais, apoiando-me em pequenas-grandes coisas, como a reserva de hotel e o transporte para Málaga, para não falar já da sua preocupação com o meu bem-estar pessoal, bem como assegurar-se que eu não falhava no cumprimento de horários.

IDA ÀS REUNIÕES DAS COMISSÕES FIP

No dia 12 de manhã, decorreram as reuniões da Comissões FIP, tendo-me cabido a missão de participar nas reuniões de três dessas comissões.

Às 8 horas e 30 minutos teve início a reunião da Comissão FIP de História Postal, presidida pelo belga Leo de Clercq. Na reunião foi aprovado o relatório das actividades da Comissão em 2004-2006, assim como os delegados fizeram o relato das actividades a nível nacional. Como delegado português presente na reunião, aproveitei para salientar a edição recente de três importantes obras na área: os livros de Pedro Vaz Pereira, Eduardo e Luís Barreiros e Miranda da Mota. Na reunião e após a análise e discussão de dois documentos sobre o assunto, foi aprovada a criação de uma sub-classe de História Postal, designada “Estudos Históricos, Sociais e Especiais”.

Pelas 10 horas e 15 minutos iniciou-se a reunião da Comissão FIP de Inteiros Postais, presidida pelo americano Stephen Schumann, tendo sido aprovado o relatório das actividades da Comissão em 2004-2006. Das actividades a nível nacional, apenas fizeram relatos Portugal e a Rússia. O meu relato apresentado verbalmente e por escrito em inglês, focou tópicos como o balanço da actividade exposicional a nível nacional e internacional, as emissões dos correios, a imprensa periódica, os leilões, o web site do delegado FIP português, os seminários de Inteiros Postais e a edição do livro dos irmãos Eduardo e Luís Barreiros. No final da reunião, teve lugar a apresentação de duas colecções em power point. Lars Engelbrecht, da Dinamarca, apresentou “Os cartões-postais da Dinamarca – Um estudo das variedades da Primeira Emissão”, Arturo Martin de Nicolas, de Espanha, apresentou “Os Bilhetes Postais Oficiais da Segunda República Espanhola 1931-1939”.

A partir das 12 horas teve lugar a reunião da Comissão FIP de Literatura Filatélica, presidida pelo inglês Francis Kiddle, tendo sido aprovado o relatório das actividades da Comissão em 2004-2006. Verificou-se aqui a apresentação de relatos de actividades nacionais pela parte de todos os delegados presentes, à excepção da Espanha.

Como delegado português presente na reunião, abordei a existência da ANJEF, a realização da exposição tri-lateral de Literatura Filatélica “ESTREMOZ 2005”, os prémios de mérito filatélico-literário da ANJEF e da FPF, os livros publicados recentemente, o surgimento de web sites e os Seminários e Encontros de Literatura Filatélica, promovidos pela ANJEF.

CONGRESSO DA FIP

O Congresso da FIP decorreu na 6ª feira, dia 12, num dos salões do Hotel NH Málaga, a partir das 8 horas e 30 minutos, até à hora jantar, apenas com interrupção para almoço. A delegação portuguesa foi presidida por Pedro Vaz Pereira e integrada por António Borralho e eu próprio. Por estar extremamente cansado, só próximo da hora do almoço me dirigi para o local do Congresso, pouco antes da interrupção dos trabalhos. O suficiente para ver delegados, quase todos presidentes das Federações Filatélicas dos quatro cantos do Mundo, a felicitar efusivamente com um aperto de mão ou um abraço ou ambos, um homem baixinho, Presidente da Federação dum país pequenino, situado no corno da Europa e que ousara ser o Estratega e o General que no terreno unira as tropas em torno duma candidatura à Presidência da FIP (a de Joseph Wolff, do Luxemburgo) e de uma moção visando a democratização estatutária e funcional da FIP. E apesar da moção (vencedora) ter sido apresentada pela Federação desse país pequenino, entrou na mesa segundo sei, subscrita por mais 16 países, tendo sido aprovada maioritariamente. Daí que os apertos de mão e os abraços fossem acompanhados de um: - “Ganhámos, Pedro!”. - Estão a ver? O país pequenino era Portugal e o Estratega e General, o Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia. Mas a vitória, essa era a de todos os que com razão lutaram pela Razão. E um frémito de emoção percorreu então o meu corpo e eu, que já sou avantajado, senti-me maior ainda, como se tivesse os pés na Terra e a cabeça bem para além da estrela Alfa de Centauro. Portugal e com ele muitos outros pequenos e mesmo grandes países eram maiores que os grandes países juntos. É caso para dizer que “A união faz a força”. Portugal foi assim o cimento que aglomerou todas as sinergias dispersas. E por isso, com Bob Dylan apetece dizer: - The times, they are changing!”

O CULTIVO DA AMIZADE

A Amizade é um bem que se deve usufruir e cultivar, pois dá tempero à vida como o Amor, esse bem supremo. A ESPAÑA 2006 deu para encontrar velhos amigos e fazer novas amizades. E eu fiz bastantes. Mas seja-me permitido, sem menosprezo pelas demais, referir duas dessas novas amizades, por sinal com dois brasileiros, Reinaldo Estêvão Macedo (um temático virado inteirista de sucesso) e Sérgio Marinho (um temático com uma alma do tamanho do Mundo). Dois caras agradáveis, com quem dá gosto cavacar. Ao pé deste último é mesmo impossível estar mal disposto. Parecido com ele só Anthony Virvilis da Grécia, também como ele, bom copo e bom garfo.

Se mais méritos não houvesse, uma mais valia eu teria trazido, concerteza, de Málaga. O reforço da Amizade, pois claro!

 

 

 

 

Nas grutas de Nerja, da direita para a esquerda: Hernâni Matos, Reinaldo Macedo e esposa, esposa de Klerman Lopes e Pedro Vaz Pereira (Cortesia de Klerman Lopes) .

Hernâni Matos e Sérgio Marinho numa rua de Nerja, a varanda da Europa (Cortesia de Reinaldo Macedo).

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