Hernâni Matos

Inteiros Postais de Portugal

UMA JÓIA DO NORTE

Hernâni Matos

in Catálogo do Salão de Filatelia e Coleccionismo Inter-sócios da Associação Poveira de Coleccionismo, Póvoa de Varzim, Abril de 1994;

Porque estão em curso as comemorações do VI Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique, falar no Infante está na ordem do dia e sob um ponto de vista maximófilo é também imperioso fazê-lo. Daí o objecto do presente artigo ser um T.C.V. henriquino que é uma  autêntica jóia do Norte.

Trata-se do inteiro postal oficial, horizontal, pequeno formato, lilás cinzento, emitido em 1894 a propósito da comemoração do 5º Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique. É o primeiro bilhete postal ilustrado português e foi impresso em cartolina média, camurça. Tem impressa a taxa de 10 réis, pelo que podia circular em Portugal e Espanha, sem aposição de selos adesivos como complemento de porte. Já para os países da União Postal Universal precisava de selos adicionais concorrendo para a taxa de 20 réis, que era em quanto importava o porte para aqueles países. Para os restantes países não pertencentes à  União Postal Universal, o complemento de porte realizado a partir de selos adesivos tinha de ser de 20 réis.

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O desenho e a gravura do bilhete postal são da autoria do gravador espanhol Francisco Pastor e representam o Infante D. Henrique com uma espada na mão direita e uma carta geográfica na mão esquerda, por cima de uma esfera armilar. O Infante tem os pés assentes sobre a carta de Portugal, na qual está assinalada a Ponta de Sagres. À esquerda do Infante, o desenho das suas Armas, inspirado numa capitular existente na Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara. Por detrás das Armas do Infante, tomba uma fita onde se pode ler a sua divisa " talent de bien faire " .

O bilhete postal foi emitido por Portaria de 8 de Fevereiro de 1884 (Diário do Governo nº 32, de 12/2/1894), que fixava de 4 a 13 de Março o período de circulação do bilhete postal. Mais tarde, a Portaria de 3 de Dezembro de 1895 (Diário do Governo nº 4, de 7/1/1896) autorizou o bilhete postal a circular até se esgotar, o que aconteceu até 31 de Março de 1913. 

O bilhete postal tem aposto um selo de 10 réis lilás-rosa (C.E. nº99) da emissão comemorativa do 5º Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique, representando o Infante sentado na proa de uma nau, ladeado de dois navegadores, empunhando uma espada na mão direita e uma esfera armilar na mão esquerda, segundo desenho de Veloso Salgado. O selo, tem papel pontinhado, impressão litográfica e denteado 14. O seu período de circulação foi de 4 a 13 de Março de 1894.

 As obliterações são as seguintes:

- PRIMEIRA -

Sobre o bilhete postal, no canto superior esquerdo, a marca do dia, circular, do Porto, do tipo de 1880. Obliteração de 7 de Março de 1894.

 - SEGUNDA -

Sobre o selo, o primeiro carimbo comemorativo português, de formato circular, tendo dizeres "1394 , CENTENARIO, 1894 ", em letras góticas. Criado expressamente para inutilizar os selos e os bilhetes postais da emissão comemorativa do 5º Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique (Continente e Açores ), foi aposto a tinta preta entre 4 e 13 de Março de 1894, em diversas localidades, das quais as mais correntes, por ser maior o tráfego postal, são Lisboa, Porto, Coimbra, Funchal e Ponta Delgada. É conhecido ainda sobre  bilhetes postais e selos não circulados, o que leva a concluir que foi utilizado como carimbo de favor.

 - TERCEIRA -

Sobre o bilhete postal, no canto inferior esquerdo, como marca de chegada, a marca do dia, circular, de Dresden (Alemanha ). Obliteração de 10/3/1894.

 Analisando os três elementos constitutivos do bilhete postal é de concluir que sob um ponto de vista maximófilo se verificam as três concordâncias:

   1ª - DE MOTIVO:

O Infante D. Henrique;

   2ª - DE LUGAR:

Porto. Filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, quinto na ordem de genitura e terceiro entre os que tiveram biografia, o Infante D. Henrique veio à luz na cidade do Porto, a 4 de Março de 1394, - " uã quarta feira de cinza " como assinala Fernão Lopes. Pensa-se que o local do nascimento terá sido a Casa da Alfândega Velha da cidade do Porto, em cuja Sé foi baptizado em 8 de Abril do mesmo ano;

   3ª - DE TEMPO:

A obliteração  do Porto, de 7 de Março de 1894, está dentro do período de circulação do selo postal;

 Pela sua raridade, peças como a descrita, são efectivamente jóias. Na verdade, o bilhete postal de que vimos tratando é o único conhecido, circulado do Porto para o estrangeiro. É uma peça polivalente que tem cabimento em vários tipos de participações: inteiros postais, filatelia tradicional, história postal, filatelia temática e maximafilia. Para nós, maximafilistas, é um autêntico monumento da maximafilia mundial, que  merece toda a nossa admiração. E talvez seja essa a melhor forma de nós, maximafilistas, seiscentos anos depois do seu nascimento, homenagearmos o Infante D. Henrique, essa figura emblemática dos Descobrimentos Portugueses. 

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