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Mascarenhas! Até um dia… |
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Há pessoas que se não tivessem nascido tinham que ser inventadas. E isto porque reconhecemos a importância do que fizeram e porque o fizeram. Assim como sentimos o vazio que nos deixa a sua partida. Vazio na actividade filatélico-literária, no convívio, na amizade, numa opinião ou num conselho amigo. Vêm estas palavras a propósito dum danado dum algarvio dos quatro costados, teimoso que nem um raio, natural de Mexilhoeira da Carregação – vejam lá onde o tipo foi nascer no ano de 1918 – a quem os padrinhos deram o nome de Américo Mascarenhas Pereira, mas cujo nome de guerra para os amigos era “O Patadas”, porque com ele a unidade monetária era “a patada”, que segundo o Zé Manel Pereira, pessoa dada a coisas de câmbio, equivalia a 1 conto de réis. Pois com “O Patadas”, era sempre duma patada para cima. Pois bem, “O Patadas”, apesar de lutador como poucos - chegou a ser boxeur profissional - não aguentou a última luta e já não se levantou do tapete. Bem lutou, com quantas forças teve, mas desta vez foi vencido contra sua vontade. Não mais ouviremos a sua voz de metralhadora ligeira, nem seremos alvo, infelizmente para nós, do seu verbo fácil, da sua ironia sarcástica e da sua pontaria certeira, que nos levavam muitas vezes a rever posições e a aperfeiçoar conceitos. “O Patadas”, a quem sempre tratei por “Amigo Mascarenhas”, dera-me há muito o privilégio da sua amizade, tendo-me recebido por mais de um vez na sua casa da Ilha de Armona, onde me mostrava as conchas que apanhava e me contava as aventuras de pesca, para logo de seguida me mostrar as formigas-leão que povoavam os seus domínios, bem com a osga de estimação que tinha na casa de banho. E era fatal comermos uma sardinhada à hora do almoço no restaurante do Tolinhas, na companhia das nossas mulheres e da minha filha. |
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Mascarenhas Pereira e a esposa Lourdes, em 1988. |
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“O Patadas”, que de Junho a Outubro, num regresso às origens, ia para o seu Algarve para desintoxicar da Lísbia e dos postais, como ele próprio dizia, não se aguentava, naturalmente, e a conversa ia sempre parar aos postais. Quando não era ele a escorregar no assunto, era eu. E quanto eu gostava de ouvir aquela voz de metralhadora ligeira, a dizer-me e a ensinar-me o que eu gostava de aprender! Ultimamente encontrávamos na Póvoa de Varzim, cidade que para ambos foi adoptiva. E falávamos e refalávamos de postais, sem cerimónias, saboreando uma bacalhauzada à Gomes de Sá ou um polvo grelhado. Conheci o Mascarenhas em 1984, durante a Lubrapex e foi amizade à primeira vista, que se foi cimentando com o convívio. Do Mascarenhas fui sempre consumidor ávido de escritos filatélicos, que na sua linguagem e estilo inconfundível ficaram a povoar a Imprensa Filatélica Portuguesa no último quartel do século XX e nos primeiros anos do novo milénio. A maior parte dos escritos eram sobre inteiros, eram escritos com descobertas, com sistematizações ou com sínteses de “toda a pedra que partiu”, com os exemplares que lhe chegavam à mão e que ele comprava, como vendia ou trocava, em Portugal e no estrangeiro. Com base em toda a pedra partida, pôs cá fora dois catálogos, um sobre Portugal Continental (1976) e outro sobre Portugal Ultramarino (1979) e tinha outro à espera de publicação. |
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Américo Mascarenhas Pereira e Armando Bordalo Sanches, dois Amigos num convívio de filatelistas no Porto, em 1991. |
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O Mascarenhas foi seareiro que desbravou mato, mas foi também missionário que fez o apostolado do coleccionismo de inteiros postais, dando um vigoroso contributo para a dinamização desta prometedora classe filatélica. Isso ficamos a dever ao ladrão que depois do 25 de Abril lhe assaltou a casa de Moscavide e lhe surripiou entre outras coisas a sua colecção de selos. É aí que o Mascarenhas, já rodado noutras lides filatélicas e calejado da interacção com algumas figuras de proa da época, se atira com unhas e dentes aos inteiros postais, um dos enlevos da sua vida. O Mascarenhas foi e será sempre um dos meus Mestres de Inteiros Postais, mas sobretudo um Amigo, com quem interrompi as conversas de sempre. Até um dia… |
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Hernâni Matos |
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