Hernâni Matos

Inteiros Postais de Portugal

MONTRA DE INTEIROS POSTAIS

Tipo CERES

Vidé Pedro Vaz Pereira, in A Gloria Portuguesa, artigo publicado  no nº 392 - do "Boletim do Clube Filatélico de Portugal" - Junho de  2001

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CERES

Bilhete postal do tipo "Ceres", de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça e que foi processado durante o período da Greve dos Correios de Março de 1920.

O referido bilhete postal foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D.Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (véspera do início da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, recebendo a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central.

De salientar que a Greve dos Correios estava integrada no movimento grevista do funcionalismo público e visava lutar contra o aumento do custo de vida. Teve lugar sobretudo entre 4 e 20 de Março de 1920, mas nalguns locais – caso de Estremoz - ultrapassou este período.

A mensagem do bilhete postal é a seguinte:

"Recebemos a sua estimada carta e as amostras. Fomos a casa de sua Ex.ma Cunhada perguntar por seu Ex.mo Marido e disseram-nos que já não estava. E como veio a greve do c. de ferro, temos estado à espera. Mas como hoje nos disseram que seguia o correio por Portalegre, rogo-lhe a fineza de dizer o que deseja que se faça.

          Os nossos cumprimentos e creiam-nos sempre ao seu dispor.

Sua amiga e muito obrigada

M.ª do Carmo S. de Araujo"

O bilhete postal apresenta a marca de chegada a Estremoz no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição!

 Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10 556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete postal.

   Está ainda por investigar o modo como é que a mala postal que transportava o bilhete postal foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

 Fazendo fé na mensagem do bilhete postal, sei que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. 

 

 

_ Trajecto normal do correio Lisboa-Estremoz.

_ Trajecto do comboio que furou a greve.

_ Estrada Estremoz-Elvas, por onde o postal terá chegado ao destino.

Nunca houve ligação ferroviária directa de Estremoz com Elvas. A Ligação Estremoz-Portalegre (a tracejado no desenho) não existia em 1920. 

A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões:

- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens, Portalegre e Elvas;

- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.

Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete postal entre Elvas e Estremoz. Militares? Guarda Republicana? Recoveiros? Particulares ? Não sei. É um assunto que procurarei investigar e que se for bem sucedidos, divulgarei. Posso, porém, desde já assegurar que, de Elvas para Estremoz, o bilhete postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que nunca houve ligação ferroviária entre Elvas e Estremoz. Por outro lado, em 1920 não existia ainda o ramal Portalegre-Estremoz, que só foi inaugurado em 21 de Janeiro de 1949. Para além disso, só uma certeza tenho: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

O interessante bilhete postal cujas marcas acabo de descrever, levou-me a investigar os aspectos assumidos pela Greve dos Correios em Estremoz, visando reconstituir a história local daquele período conturbado da nossa História Postal. Para o efeito socorri-me da imprensa local daquela época (os semanários "O Jornal de Estremoz" e "O Eco de Estremoz" ) e consegui fazer a cronologia da greve, a qual publiquei no “Correio do Alentejo” nº 5.

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