Hernâni Matos

Inteiros Postais de Portugal

A LITERATURA FILATÉLICA AO SERVIÇO DA CULTURA, 

DO TURISMO E DA OCUPAÇÃO DE TEMPOS LIVRES - II

 Porto, 13 de Outubro de 2003. Comunicação apresentada no auditório da Biblioteca Central, do Instituto Politécnico do Porto, após o acto inaugural do IV Salão de Literatura Filatélica da ANJEF.

Excelentíssima Senhora Directora do SDP da Biblioteca Central do IPP:

Excelentíssimos Convidados

Estimados Amigos e Filatelistas

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

 

Em primeiro lugar, quero saudar todos quantos aqui estão, dispostos a ouvir-me, nesta manhã de Outubro, convictos de que é sempre uma boa aposta, a frequência da Biblioteca Central do Instituto Politécnico do Porto, arquitectonicamente um estímulo visual e permitam-me a designação algo obreirista, mas a meu ver correcta: funcionalmente uma fábrica de cultura. Repito: uma fábrica de cultura com que está magnificamente apetrechado o Porto, cidade de Cultura, cravejada à beira atlântica do Douro Litoral.

Em segundo lugar, em nome da ANJEF, quero agradecer à anfitriã, Drª Maria Otília Lage, Directora do Serviço de Documentação e Publicações do Instituto Politécnico do Porto, cuja dinâmica cultural é por todos sobejamente reconhecida, a hospitalidade que é apanágio de todos os portuenses e que permitiu a nossa presença aqui, na Biblioteca Central do IPP, uma das  belas salas de visita desta cidade.

Em terceiro lugar, permitam-me que cite o Génesis (I.28.): Deus disse: “- Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a”, palavras dirigidas a Adão e Eva e que julgamos poderem ser aplicáveis aos “escritores e jornalistas filatélicos”.

Não se nasce escritor ou jornalista filatélico, mas podemo-nos tornar escritor  ou jornalista filatélico pelos motivos mais diversos, o que para mim é irrelevante. O que importa – isso sim é importante – é a própria condição de ser-se escritor ou jornalista filatélico. É estarmos na mesma margem do rio e espraiarmos o nosso olhar analítico pelo horizonte filatélico. E com frequência  termos o grato e reconfortante prazer de efectuar uma descoberta inesperada. E nessa altura sentimos o que sentiram, porventura, os marinheiros de Quinhentos no preciso momento em que avistavam novas terras. Que alegria, que emoção! Um frémito nervoso que nos percorre o corpo, a sensação de prazer que nos transporta a outra dimensão e nos potencia ao infinito.

Pese embora o trabalho persistente de formiga obreira da plêiade de escritores e jornalistas filatélicos de gerações anteriores, o trabalho está longe de estar terminado e não termina nunca, daí eu ter necessidade de citar o Génesis, ao dirigir-me aos escritores e jornalistas filatélicos.

Em quarto lugar quero fazer uma dedicatória e vão perceber porquê. A Literatura Filatélica muito deve à acção dos seus pioneiros no século XIX, aos seus continuadores no século XX e àqueles que no século XXI resistem heroicamente contra a morte anunciada dos selos de Correio, analisando peças, pesquisando documentos, formulando teses e elaborando doutrinas, o que se revela permanentemente indispensável ao fomento do coleccionismo filatélico nas suas múltiplas vertentes e ao desenvolvimento e fomento de todas as classes filatélicas. Daí que a presente palestra seja dedicada àqueles que mortos ou vivos, constituem por algum motivo, marcos de referência, que nos ajudam a compreender o passado da filatelia e a perspectivar o seu futuro.

Dedico, assim, a presente palestra a:

 

Faustino Martins

Carlos Trincão

Guedes de Magalhães

David Cohen

J. Marsden

J. Ell

Vasconcelos Carvalho

Romano Câmara

Henrique Anachoreta

Godofredo Ferreira

Marques Gomes

Miranda da Mota

R. B. Yardley

Cunha Lamas

Mascarenhas Pereira

Luís Frazão

Fred Melville

Câmara d’Orey

Moreira Baptista    

João Soeiro

Carl George

Oliveira Marques

Aníbal Queiroga

Joaquim Leote

Simões Ferreira    

Eládio de Santos

Luís Eugénio Ferreira

Bordalo Sanches

Castro Brandão

António Furtado

Armando Vieira

Elder Correia

António Fragoso

Artur Vasconcelos    

David Gordon

Oliveira  Pinto

 

Minhas senhoras e meus senhores:

Como é do conhecimento geral, pelo elevado padrão da actividades aqui desenvolvidas, a Biblioteca Central do Instituto Politécnico do Porto tem elevados pergaminhos. Estão pois a ver Vªs Exªs quão espinhosa é para mim a tarefa de proferir aqui uma palestra. Veremos no final se fui merecedor da confiança que em mim foi depositada.

A minha presença aqui poderá ter deixado perplexos alguns dos presentes, que porventura me desconheçam. De facto, é caso para perguntar, o que faz aqui um mouro do sul, nascido em terra de sequeiro, a botar faladura na Biblioteca Central do IPP desta bela “mui Nobre, Leal e Sempre Invicta, cidade do Porto”, às tantas da manhã dum começo de semana, que por vezes é penoso.

Não é caso para menos, pois não por opção, mas por nascimento sou um homem do Sul e um alentejano dos barros de Estremoz, esse mesmo barro com que Deus terá moldado o primeiro homem. E se me permitem, direi que tenho em mim profundas marcas de identidade cultural, gravadas atavicamente na alma alentejana e que atravessam as telas de um Silva Porto, de um D. Carlos de Bragança ou de um Dordio Gomes, assim como a magistral prosa de um Fialho de Almeida, de um Manuel Ribeiro ou de um Antunes da Silva, bem como as vibrantes estrofes de um Conde de Monsaraz, de uma Florbela Espanca ou de um Manuel da Fonseca. É pois um dado adquirido que sou um alentejano com orgulho da matriz da sua natureza ancestral.

Quis, porém, o Deus acaso que há vinte anos me apaixonasse por uma poveira, nascida à borda d’água. Daí, que desde 1983 vá à Póvoa de Varzim, onde tenho segunda casa e família e onde criei amizades, dentro e fora da família da minha mulher, que é também minha e dentro da grande família filatélica.

Em 1983, com 37 anos e filatelista desde os bancos da escola primária, visitei no Posto de Turismo uma mostra filatélica, mais propriamente uma mostra de postais máximos e tive o privilégio de travar conhecimento com o Engº Reis de Almeida, hoje meu grande amigo e que é o responsável não só pela minha conversão a esta forma de coleccionismo, como por uma reviravolta de 180 graus na minha actividade de filatelista. De facto, a partir daí nunca mais fui o mesmo, passei a ser filatelista a tempo inteiro, com necessidade de encontrar tempo dentro do tempo, para conseguir conciliar a minha actividade profissional com a minha intervenção cultural, já ocupada com outras vertentes como a cultura popular e a etnografia alentejana.

Como filatelista fui indicado elos meus pares para o desempenho de determinados cargos e foi assim que na qualidade de Delegado de Literatura da Federação Portuguesa de Filatelia junto da Federação Internacional de Filatelia, que em 1999 efectuei o diagnóstico da situação da Literatura Filatélica Portuguesa, o qual me levou à conclusão de que o desempenho da função de Jornalista e de Escritor Filatélico poderia ser valorizado através da constituição de uma Associação cuja necessidade de criação vinha sendo sentida pela classe. A “ANJEF – Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos”, cuja celebração de escritura notarial teve como palco o Castelo de Évoramonte, no dia 17 de Setembro de 2000 e na qual participaram entre outros sócios fundadores, além de mim próprio, o Engº Miranda da Mota da Póvoa de Varzim e o Senhor Eduardo Sousa do Porto, aqui presentes e qualquer deles meu grande amigo.

Com eles foi gjizada a realização do Salão de Literatura Filatélica desde agora patente ao público nesta bela e dinâmica biblioteca, onde parece haver o hábito salutar de associar palestras às exposições realizadas. Por isso e porque como Presidente da ANJEF tenho obrigação de ter as costas largas, fui indigitado como orador de serviço. De resto, modéstia aparte sou um velho militante de boas e belas causas. Como tal, considero ser meu imperativo de consciência a disponibilidade absoluta e integral para responder à chamada a múltiplos reptos que amiúde me são lançados. De resto, filho de alfaiate, aprendi a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido de estar hoje, aqui.

No acto de começar e parafraseando D. Francisco Manuel de Melo, é caso para dizer "Da infelicidade da composição, erros de escriptura e outras imperfeições de estampa, não há que dizer-vos: Vós as vedes, vós as castigais."       

Disse há pouco que a Biblioteca Central do IPP é “uma fábrica de cultura” com elevado padrão de actividades desenvolvidas. Contudo, as potencialidades desta bela e eficaz biblioteca não estavam, nem estão, tampouco esgotadas. É que aqui nunca tinha acontecido filatelia, nem em particular, literatura filatélica. Por isso, a nossa presença aqui é um acto de Cultura, porque uma das facetas da Cultura é a cultura filatélica, dinamizada por um segmento de população, que embora não sendo numericamente importante, se impõe pela sua dinâmica envolvente e pela projecção das actividades desenvolvidas.

A atestar esta última afirmação, está o palmarés das actividades culturais, filatélicas e não só, desenvolvidas por entidades como a Associação Filatélica Alentejana no termo de Estremoz, a Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos, que se pretende um pouco por toda a parte, ou do Clube Nacional de Filatelia e do Núcleo Filatélico do Ateneu Comercial do Porto.

Qualquer destas Associações visa contribuir para a animação cultural da região onde estão inseridos e divulgar e desenvolver a filatelia, muito em especial entre as camadas juvenis. Para tal desenvolve-se um trabalho que é revelador das potencialidades da Filatelia como eficaz agente ao serviço da Cultura, do Turismo e da Ocupação dos Tempos Livres. Trabalho que para ser possível deve contar com o apoio de entidades como as Câmara Municipais, a Federação Portuguesa de Filatelia e a Direcção de Filatelia dos Correios de Portugal.

No caso da ANJEF, há outros objectivos atingir que têm a ver com a génese e as consequências do próprio acto de criação filatélico-literária, que adiante irei analisar.  E, porque nem todos os presentes são filatelistas, falar de Literatura Filatélica, exige que falemos, naturalmente de Filatelia, o que implica a necessidade de falarmos primeiramente de Correio.

Como é do conhecimento da maioria dos  presentes, a criação do Correio em Portugal remonta ao século XVI, quando D. Manuel I, a 6 de Novembro de 1520, encontrando-se em Évora, nomeou Luís Homem para o cargo de Correio-Mor e o provimento de Mestre de Posta.

A Administração do Correio esteve na mão de particulares até ao século XVIII. Foi por alvará de 16 de Março de 1797 que foi extinto o cargo de Correio-Mor, voltando o Correio à Administração do Estado, ficando a Secretaria de Estado da Repartição dos Negócios Estrangeiros com o cargo de Administração das Postas, Correios e Diligências de Terra e Mar. Porém, a exploração continuou a reger-se pelos regulamentos em vigor até que pudesse ser publicado novo regulamento, o que se verificou em 1 de Abril de 1799. A partir daqui, as cartas passam a receber marcas postais indicativas do porte a pagar pelo destinatário, bem como marcas nominais da localidade de partida e de chegada. É o que se passa com a carta que apresentamos, expedida do Porto em 19 de Março de 1819, para Barcelona, via Lisboa e Badajoz, com marca nominal de PORTO. Marca de porte de 30 reis,

atribuída em função do peso da carta e da distância, ao contrário do que acontece nos dias de hoje, pois no território nacional, o porte é apenas função do peso.

A segunda carta que mostramos foi expedida do PORTO para COIMBRA em 27 de Agosto de 1823. Apresenta a marca SEGURA PORTO e anotação manuscrita SL, o que significa SEGUE LOGO, com prioridade no envio e na distribuição

A terceira carta que mostramos foi  expedida por Correio Marítimo, em 4 de Julho de 1825, de Harbour Briton - Inglaterra para o Porto. Marca de entrada BARRA DO PORTO e marca de porte de 160 reis.

A quarta carta que apresentamos foi expedida do PORTO para a FIGUEIRA, em 20-8-1841. Apresenta a marca FRANCA de Porte Pago de 30 reis e anotação manuscrita Pg 30 (Pagou 30 eis). Ausência de marca no verso.

Quanto à quinta carta que aqui vemos, trata-se de uma folha de processo judicial, expedida sob a forma de carta, do PORTO para VILA REAL, em 3-1-1846 e apresenta a marca SEGURA PORTO.

Entretanto, por Real Decreto de D. Maria II, datado de 27 de Outubro de 1852, foram estabelecidas as bases de uma 1ª Reforma Postal, pela qual foi introduzido a partir de 1 de Julho de 1853, o uso dos selos postais adesivos como meio de pagamento prévio do porte. O Porto como Administração de Correio, passa a obliterar os selos com o carimbo numérico de barras 52 do Porto e a marcar as cartas com a marca de dia em uso no Porto. É o que mostra a sexta carta, expedida do PORTO para COIMBRA em 6-2-1855, levando afixado um selo de 25 reis de D. Maria II.

A sétima carta que mostramos foi expedida do PORTO para a REGOA  em 11-3-1862, com selos de D. Pedro V, perfazendo o porte de 75 reis e obliterados com o carimbo circular de pontos nº  52.

A oitava carta apresentada, com porte de 25 réis obtido com selo de D. LUÍS I, em relevo, foi expedida do PORTO para LISBOA em 4 de Agosto de 1864. No verso, carimbo de chegada a LISBOA, de 5 de Agosto de 1864.

A nona carta apresentada, de 5 de Maio de 1866, chegada ao PORTO em 10 de Maio de 1866, apresenta marca BARRA DO PORTO e marca de 160 reis de porte a pagar. No rosto da carta, anotação manuscrita “P‘ Bela”.

Em 12 de Dezembro de 1869 é publicada uma 2ª Reforma Postal, que muda as marcas postais, bem como algumas Administrações e Direcções de Correio. Assim, o Porto passa a obliterar o  seus selos com a marca oval de barras, número 46. É o se passa com a décima carta, do PORTO para a REGOA em 4-4-1877. No verso, carimbo de chegada à Regoa em 5-4-1877.

Em 1878, os Correios determinaram que se abandonasse o procedimento de obliterar o selo com um carimbo numérico de barras e a carta com marca nominal indicativa da estação de procedência e se reduzisse tudo a uma operação, mas só a

partir da 3ª Reforma Postal de 1880 é que são introduzidas marcas do dia semelhantes às de hoje. A décima primeira carta foi expedida em 14-10-1879, do PORTO para VIANNA DO CASTELLO, onde chegou a 15-10-1879, conforme carimbo de chegada no verso. Apresenta a marca ENTROU TARDE, com o significado de que as malas de Correio já estavam fechadas, pelo que seguiria na expedição seguinte.

A décima segunda carta que apresentamos foi expedida em 17-1-1882, do PORTO para BRAGA e apresenta a marca ENTROU TARDE.

Uma vez que já falámos de Correio, perspectivado em termos locais, é altura de falar de Filatelia.    

A Filatelia ou coleccionismo de selos e demais fórmulas e marcas postais surgiu praticamente com a emissão dos primeiros selos postais em Inglaterra, em 1840. No nosso país, os selos postais foram introduzidos no reinado de D. Maria II, em 1853 e, já no século passado havia filatelistas em Portugal.

Actualmente, os filatelistas portugueses agrupam-se em agremiações que os representam e defendem os seus interesses, como é o caso da Associação Filatélica Alentejana, sediada em Estremoz e que em Maio passado comemorou o seu 20º aniversário.

Existe além disso uma estrutura que aglutina, orienta e disciplina as agremiações filatélicas. É  a Federação Portuguesa de Filatelia, a qual por sua vez está federada na F.I.P. - Federação Internacional de Filatelia, que supervisiona toda a Filatelia mundial.

A ANJEF está filiada na Federação Portuguesa de Filatelia, mas a sua acção, por ter a ver com o próprio acto de criação filatélico-literária, não se esgota no seio da Federação.

A Filatelia engloba várias modalidades ou classes, a saber: Filatelia Tradicional, Filatelia Temática, Aero-Filatelia, Astro-Filatelia, História Postal, Inteiros Postais, Maximafilia, Filatelia Juvenil, Literatura Filatélica e Selos Fiscais. Cada uma destas classes é um mundo, com a sua estética, o seu sistema de valores, os seus regulamentos, as suas jóias, os seus mitos, os seus cultores e também os seus detractores.

Disse há pouco que a nossa presença aqui era um acto de Cultura. Direi agora que a Filatelia está sob múltiplos aspectos ao serviço da Cultura. Na verdade, os selos e demais fórmulas postais são realizações plásticas de alguns dos nossos maiores artistas plásticos. Caso do meu conterrâneo, o conceituado artista plástico Armando Alves, do Grupo dos 3 Vintes e da Editora Campo das Letras, do Porto, autor da emissão “Barcos dos Rios Portugueses”, emitidos em 1981 pelos Correios de Portugal. Entre os seis selos que constituem a emissão, permito-me aqui destacar, por uma questão de contexto, o selo do barco rabelo.

O selo foi na época utilizado na realização dum postal máximo triplo, tendo com suporte um postal editado pelo Centro de Caridade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do Porto e uma obliteração especial ilustrada, também do Porto, de 29 de Julho de 1981, reproduzindo o barco rabelo e comemorando o dia do Correio Fluvial na Exposição Filatélica PORTO 81.

O selo do barco rabelo é, como outros selos, paradigmático, porque fruto da criação dum artista plástico, neste caso de nomeada. É que a Filatelia ao transpor uma obra de arte para os selos, contribui para a sua divulgação e para a possibilidade de uma maior partilha da mensagem que lhe está subjacente. Isto é, a Filatelia democratiza a obra de arte, tornando-a acessível sob outras formas junto dum público mais vasto, o qual na sua esmagadora maioria, nunca poderia doutra forma ter acesso à mesma.

O selo do barco rabelo leva necessariamente o filatelista temático à pesquisa bibliográfica que o conduz fatalmente a ler o que está publicado sobre etnografia naval, nomeadamente Octávio Lixa Filgueiras.    

Aprenderá que após a formação da nacionalidade, muitos documentos já se referiam a este barco do Douro, nomeadamente o foral de Gaia que citava as barcas do vinho, no século XIII.

Aprenderá que com materiais humildes, como o pinho, o castanho e o linho, nasciam das mãos dos marinheiros embarcações de arquitectura rude e ao mesmo tempo majestosa. Velas pandas, largas e quadrangulares, proa arrebitada e espadela, emprestavam-lhe a sua originalidade.

Aprenderá que o barco Rabelo, com origem nas embarcações nórdicas dos Suevos, Visigodos e  Vikings, passou a ter a sua identidade bem definida no século XVIII, quando a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro publicou alvarás relacionados com o mesmo.

Aprenderá que a vida no barco Rabelo era árdua. Quem confeccionava a comida era o moço ou o vinhateiro, que também zelava pelo vinho e víveres. A tripulação alimentava-se à base do caldo e do peixe pescado, além de pão e vinho.

Aprenderá que no seu trajecto pelas margens do Douro, muitas vezes era necessário puxar o Barco Rabelo à Sirga.

Ficará a saber finalmente que foi em 1956 que os barcos Rabelo fizeram a sua última viagem comercial como transportadores do vinho do Porto e aqueles que se vêem atracados no cais de Vila Nova de Gaia, destinam-se a fins publicitários das Companhias Vinícolas suas proprietárias, participando ainda numa corrida de barcos Rabelo da Foz até à Ribeira.

O meu conterrâneo, pintor Armando Alves, desenhou, de resto, os selos comemorativos do Centenário dos transportes Públicos na cidade do Porto emitidos em 1973 e nesta cidade impressos na Litografia Maia.

Os selos de Correio portugueses são símbolos de portugalidade no mundo. Daí que em 1970  tenha  havido uma emissão comemorativa do “Vinho do Porto”. E porquê?

Ao longo de quase dois milénios, fez-se, nas encostas xistosas do vale do Douro, uma paisagem vitícola singular. Da sua fértil cultura seria gerado, anos após ano, um néctar nacional conhecido em todos cantos do mundo: o vinho do Porto.

Mais do que um dom da natureza, o vinho do Porto contém a historicidade de um povo e de um país, um património cultural colectivo de trabalho e experiências, saberes e arte, que gerações e gerações acumularam.

O vinho do Porto foi e é um produto chave da economia nacional e ainda mais um valor simbólico que distintamente representa a portugalidade no mundo, tal como os nossos selos de correio.

Selos de correio, que de resto, retratam, ex-líbris da cidade do Porto, da qual se diz. “ DAQUI HOUVE NOME: PORTUGAL!

Um desses ex-líbris da cidade é a Torre dos Clérigos, monumento de estilo barroco, erigido entre 1754 e 1763 pelo arquitecto italiano Nicolau Nasoni e tornada num símbolo emblemático cidade. A Torre dos Clérigos é o motivo do selo de 1$00 da série “Paisagens e Monumentos” (1º Grupo), emitida em 1 de Março de 1972.

Outro ex-líbris da cidade do Porto é a  muralha Fernandina, representada na série dos Castelos e Brasões de Portugal (7º grupo) - 19788, tendo sido emitido um selo e uma carteira com um bloco de quatro selos de 27$00, desenhados por José Luís Tinoco e Bénard Guedes. De salientar que a muralha fernandina, foi mandada construir por D. Afonso IV em 1336, para substituir a antiga cerca alto-medieval, que no século XIV se mostrava demasiado pequena face ao desenvolvimento da cidade. Ficaria concluída apenas  em 1376, já no reinado de D. Fernando. A nova muralha tinha uma extensão de 3000 passos e 30 pés de altura. Era guarnecida de ameias e reforçada por numerosos cubelos e torres quadradas, que excediam em onze pés a muralha, com excepção das torres que defendiam as Portas de Cimo de Vila e do Olival, que subiam 30 pés acima desse nível. Actualmente, encontram-se apenas à vista o pano de Santa Clara - restaurado nos anos 20 - e o trecho de S. João Novo.

Outro ex-libris do Porto é o Pavilhão dos Desportos construído em 1951, segundo projecto de Carlos Loureiro, no local do antigo Palácio de Cristal cuja construção remonta a 1860. O Pavilhão dos Desportos do Porto é o motivo do selo de 3$00, desenhado por Jorge Vidal e com o qual os correios portugueses assinalaram a realização da Exposição Filatélica Luso-Brasileira Lubrapex – 76.  Actualmente o Pavilhão dos Desportos, chama-se Pavilhão Rosa Mota e está rodeado dum belo e enorme jardim, no estilo romântico, com vistas magníficas para a zona ribeirinha da cidade do Porto.

No Pavilhão dos Desportos tiveram até hoje lugar muitos eventos de nomeada, como o 8º Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins, que em 1952 foi objecto da emissão de uma série de selos postais, desenhados por Jaime Martins Barata.

Outro ex-líbris do Porto é a Ponte D. Maria Pia, ponte ferroviária entre a zona das Fontainhas e Gaia, inaugurada em a 4 de Novembro de 1877 pelos Reis D. Luís e D. Maria Pia de quem tomou o nome. A ponte esteve em serviço durante 114 anos até à entrada em serviço da Ponte de S. João em 1991 e foi desactivada em 25 de Junho de 1991 com a entrada em serviço da ponte de S. João. Foi a  primeira grande obra de Gustavo Eiffel  e é porventura, o exemplar do património portuense mais conhecido e com mais valor a nível mundial. A Ponte D. Maria Pia é o motivo principal do selo de 10$00, desenhado pelos Serviços Artísticos dos CTT e emitido em 1977 para assinalar o Centenário dos Caminhos de Ferro a Norte do Rio Douro.

Como se pode ver, é vasta a marcofilia comemorativa visando exaltar os valores patrimoniais do Porto.

Mas não é só através dos selos e dos carimbos ou marcas postais que a filatelia está ao serviço da cultura. Também outras fórmulas de franquia como são os inteiros postais, são veículos de acção cultural. Senão vejamos. E comecemos por aquilo que em boa hora chamei “UMA JÓIA DO NORTE”, não daquelas jóias com que as senhoras se ornamentam, mas jóias da filatelia portuguesa. 

A jóia  é um T.C.V. henriquino que é uma  autêntica jóia do Norte. Trata-se de um inteiro postal oficial, emitido em 1894 a propósito da comemoração do 5º Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique. É o primeiro bilhete postal ilustrado português e foi impresso em cartolina camurça. Tem impressa a taxa de 10 réis, pelo que podia circular em Portugal e Espanha, sem aposição de selos adesivos como complemento de porte. Já para os países da União Postal Universal precisava de selos adicionais concorrendo para a taxa de 20 réis, que era em quanto importava o porte para aqueles destinos. Para os restantes países não pertencentes à União Postal Universal, o complemento de porte realizado a partir de selos adesivos tinha de ser de 20 réis.

O desenho e a gravura do bilhete postal são da autoria do gravador espanhol Francisco Pastor e representam o Infante D. Henrique com uma espada na mão direita e uma carta geográfica na mão esquerda, por cima de uma esfera armilar. O Infante tem os pés assentes sobre a carta de Portugal, na qual está assinalada a Ponta de Sagres. À esquerda do Infante, o desenho das suas Armas, inspirado numa capitular existente na Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara. Por detrás das Armas do Infante, tomba uma fita onde se pode ler a sua sigla “talent de bien faire” (vontade de bem fazer).

O bilhete postal foi emitido por Portaria de 8 de Fevereiro de 1894, que fixava de 4 a 13 de Março o período de circulação do bilhete postal. Mais tarde, a Portaria de 3 de Dezembro de autorizou o bilhete postal a circular até se esgotar, o que aconteceu até 31 de Março de 1913.

O T.C.V. tem aposto um selo de 10 réis da mesma emissão, representando o Infante sentado na proa de uma nau, ladeado de dois navegadores, empunhando uma espada na mão direita e uma esfera armilar na mão esquerda, segundo desenho de Veloso Salgado. O seu período de circulação foi de  4 a 13 de Março de 1894.

Analisemos agora as obliterações:

Sobre o bilhete postal, a marca do dia, do Porto, do tipo de 1880. Obliteração de 7 de Março de 1894.

Sobre o selo, o primeiro carimbo comemorativo português, criado expressamente para a emissão.

Sobre o bilhete postal, como marca de chegada, a marca do dia, de Dresden (Alemanha). Obliteração de 10/3/1894.

Analisando os três elementos constitutivos do T.C.V. é de concluir que se verificam as três concordâncias maximófilas:

1ª - DE MOTIVO: O Infante D. Henrique.

2ª - DE LUGAR: Porto. Filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, quinto na ordem de genitura e terceiro entre os que tiveram biografia, o Infante D. Henrique veio à luz na cidade do Porto, a 4 de Março de 1394, -”uã quarta feira de cinza” como assinala Fernão Lopes. Pensa-se que o local do nascimento terá sido a Casa da Alfândega Velha da cidade do Porto, em cuja sé foi baptizado em 8 de Abril do mesmo ano.

3ª - DE TEMPO: a obliteração do Porto, de 7 de Março de 1894, está dentro do período de circulação do selo postal.

Pela sua raridade, peças como as descritas, são jóias polivalentes que têm cabimento em vários tipos de colecções: inteiros postais, filatelia tradicional, história postal, filatelia temática e maximafilia.

A nosso ver, além de jóias polivalentes, os T.C.V.’s henriquinos são também monumentos da maximafilia mundial. É que Portugal é dos poucos países do mundo com T.C.V.’s no século XIX: Trata-se de postais máximos ”acidentais”, que aconteceram porque não havia outra solução a não ser,  apor o selo do lado da ilustração.

No início do século XX, os postais ilustrados começam a apresentar o anverso reservado para o endereço e para a correspondência, ao passo que no verso figurava a ilustração. É a altura da explosão do coleccionismo de postais ilustrados e há quem prefira continuar a apor o selo do lado da ilustração, escrevendo no anverso, no local destinado ao selo, a indicação T.C.V. (Timbre-côté-vue), que significa selo do lado da ilustração.

A possibilidade de expedir T.C.V.’s manteve-se até que a Convenção Postal Universal assinada no Cairo a 20 de Março de 1934, o passa a proibir expressamente.

O bilhete postal henriquino de que vimos falando, levava afixado como complemento de porte, um selo de 10 reis da mesma emissão de 1894. Esta constava de 13 valores, com 3 motivos desenhados por José Veloso Salgado, impressos litograficamente, até 100 reis e a talha doce, a partir daí, sempre sobre papel pontinhado leve, em losangos. Os selos, a meu ver extremamente belos foram objecto de ensaios como o desenho preliminar efectuado em 1893 por Veloso Salgado e que seria utilizado nos selos das taxas de 5, 10, 15 e 20 rs.

Permitam-me agora que apresente outro bilhete postal relacionado com o Porto. Trata-se do bilhete postal de 10 rs, em cartolina camurça, tipo Diogo Neto, emitido em 1892 e destinado ao Serviço Nacional.

A meio do bilhete postal , o  primeiro carimbo comemorativo português, tendo dizeres “CORTEJO CÍVICO/Março de 1894”. Esta Marca, batida a violeta foi aposta em toda a correspondência entregue no carro dos Correios presente no Cortejo Cívico do Porto, realizado em 3 de Março de 1894.. O postal apresenta ainda sobre o selo a marca de trânsito pelo CORREIO do PORTO, no dia seguinte.

Mas que é isso, do Cortejo Cívico?

Integrado nas comemorações do 5.° centenário do nascimento do Infante D. Henrique, e com a presença de suas majestades reais, os reis de Portugal, D. Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe-Coburgo-Gotha e D. Amélia D. Maria Amélia Luísa Helena de Orléans, realizou-se a 3 de Março de 1894, na cidade do Porto, o celebérrimo Cortejo Cívico.

Segundo o  “Comércio do Porto”, de 4 de Março: “Nunca se realizou, que nos lembre, nem se fará jamais, nesta cidade e porventura no País, acto mais extraordinariamente brilhante e imponente, do que o cortejo cívico que o Porto ontem presenciou.

Brilhante e imponente pelo número de pessoas que nele tomaram parte, pois fez-se representar quasi todo o país, grandioso pela beleza e riqueza dos carros alegóricos, pela variedade dos estandartes municipais, pelo brilho dourado das fardas em que o sol de quando em quando, espreitando pelas nuvens agrupadas na atmosfera, punha reverberos, cintilações surpreendentes”

O cortejo que teve início às 14.30 horas, era constituído por 38 carros alegóricos, divididos por nove grupos, de A a I. O último carro do cortejo, era o carro dos Correios e Telégrafos.”

Já no dia 2 de Março, véspera do acontecimento, o mesmo  jornal dizia:

“Está em via de conclusão o carro dos Correios e Telégrafos que receberá e expedirá telegramas no ponto de partida e no ponto de chegada, recebendo-os e expedindo-os também em parte do trajecto, visto ser impossível montar a linha em todo o percurso.

Para satisfazer as ambições dos coleccionadores, a correspondência entregue a esta estação telégrafo-postal ambulante, receberá, extra-oficialmente, nos sobrescritos um sinal de que foi expedido pelo carro do cortejo cívico.

Os telegramas conferidos a esta estação  ambulante devem ter 14 palavras a fim de que a taxa seja de 200    Reis e assim haja facilidade nos trocos.

Também será conveniente que vão devidamente estampilhadas as cartas lançadas no carro dos Correios e Telégrafos para ali receberem o sinal ou marca”.

Que dizer da raridade das peças obliteradas com a marca comemorativa do “Cortejo Cívico”?

Ainda de acordo com o Comércio do Porto” de 4 de Março de 1894:

“Entraram no carro, 1772 cartas, 396 Bilhetes Postais e 74 Jornais e bem assim 85 telegramas, que foram transmitidos, para diversos pontos do país e do estrangeiro. Durante todo o trajecto foram muito procuradas no carro, por parte do público, as estampilhas do centenário, mas as requisições não poderam ser satisfeitas, por motivo da venda dessas estampilhas só começar hoje”.

 A exaltação filatélica do Infante D. Henrique, ultrapassou largamente o ano de 1894. Assim, em 1935, houve nova emissão dedicada ao Infante D. Henrique, com selos de 1$00 e 1$50, desenhados por Arnaldo Fragoso, dos quais se apresentam aqui as provas.

Em 1960, teve lugar uma emissão comemorativa do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, com desenho de José Pedro Roque, sendo os selos heliografados na Curvoisier S. A. O selo de 1$00, representa o infante D. Henrique . Apresentam-se aqui os ensaios coloridos à mão, não aprovados, de Thomaz de La Rue de 1959 para a emissão em causa.

Voltando a falar nos inteiros postais, em Dezembro de 1944 foi emitida uma série (a 3ª) de 36 bilhetes postais de propaganda, sob a designação genérica de “Conheça a sua Terra”. O selo era de $30 castanho, tipo Caravela e os desenhos de Manuel Lapa. Três deles reproduzem motivos do Porto São eles “Douro. Barco Rabelo”, “Porto. Ponte de D. Luís” e “Porto. Igreja de S. Francisco”.

Em 22 de Junho de 1953, foi emitida uma série, dita série G, com selo  de $50 lilás-rosa, tipo Caravela, ilustrados no verso com monumentos, costumes e paisagens de Portugal. O seu preço, incluindo franquia era de 2$00. Nesta série, o grupo IIIM era constituído por reproduções de aguarelas de Júlio Resende, retratando vistas e monumentos do Porto.    

Os bilhetes postais da série G foram considerados caris pelo público e tiveram pouca venda. Em Agosto de 1963 foram novamente lançados no mercado pelos Correios, com uma sobretaxa preta na margem inferior, dizendo “Série G –Preço incluindo franquia $50” e larga tarja a cobrir o preço primitivo. Desta feita, foram bem aceites pelo público. Os que aqui apresentamos, são o nº 4 (PORTO – Rua do Carmo e Igrejas do Carmo e das Carmelitas) e o nº 6 (Porto - Praça do Infante D. Henrique). Neste último sobressai o monumento ao Infante D. Henrique, da autoria do escultor Tomás Costa e inaugurado no ano de 1900.

E que é feito de Resende, pintor, desenhador e ceramista, que segundo a crítica “modernizou a representação das temáticas neo-realistas no início dos anos 50, evoluindo depois para um gestualismo figurativo em que as manchas coloridas adquirem expressividade”? Júlio Resende continua pintor do Porto. É o próprio Resende que diz “O Porto figura em todos os meus trabalhos, mesmo aqueles que fiz no estrangeiro”. Considerado um Mestre, aos 85 anos está à frente dum projecto de Artes Plásticas, chamado Lugar do Desenho, em Valbom, Gondomar.

Em 9 de Outubro de 1976 , foi emitida uma série de seis bilhetes postais com selos de 2$00 do tipo Paisagens e Monumentos. Tratou-se duma emissão comemorativa da 6ª Lubrapex – Exposição Filatélica Luso-Brasileira, com desenho de Martins Barata. Um dos bilhetes postais, evoca a 6ª Lubrapex, que ficou conhecida por PORTO 86 e reproduz uma vista do Porto com a Ponte D. Luís, ponte rodoviária,  situada entre o morro granítico onde fica a Sé Catedral da cidade e a escarpa fronteira da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia. Construída sob projecto de Teófilo Seyrig, sócio de Eifel, a partir de 1881, foi inaugurada em 31 de Outubro de 1886.

Em 13 de Maio de 1988 foi emitido com selo de 27$00 do tipo Arquitectura Popular Portuguesa (4º grupo), um  bilhete postal comemorativo da Exposição Filatélica Luso-Brasileira Lubrapex 88 e que assinala também as vitórias desportivas do Futebol Clube do Porto.

A Filatelia como veículo de Cultura permite, como vimos, o registo de muitos valores patrimoniais e permite igualmente o registo de tradições.

A Filatelia como veículo de Cultura, ajuda também a perpetuar na nossa memória colectiva, as figuras públicas nas quais a comunidade se reconhece. Caso de Eça de Queiroz, poveiro de nascimento e escritor de projecção planetária, que por isso mesmo foi cidadão do mundo. Caso também do grande naturalista, etnólogo e arqueólogo poveiro, António Augusto da Rocha Peixoto.

A Filatelia que  para muitos é um passatempo e para outros um aforro, é também uma arte, uma ciência e um modo de fazer pesquisa histórica. Vejamos como ao serviço da Cultura, a Filatelia pode dar enorme contributo na reconstituição da História local. Quis o Deus Acaso que num pequeno lote de correspondência que me foi oferecida por mão amiga, viesse incluído um bilhete postal do tipo "Ceres", de 2 centavos, ocre, impresso em cartolina camurça e que foi processado durante o período da Greve dos Correios de Março de 1920.

O referido bilhete postal foi escrito por D. Maria do Carmo S. de Araujo, moradora na Calçada Marquês de Abrantes, 95-3º esqdº, em Lisboa, a sua amiga D.Lucrécia Rodrigues Fragoso, em Extremôz. Datado de 3 de Março de 1920 (véspera do início da Greve dos Correios), foi expedido de Lisboa nesse dia, recebendo a flâmula obliterante então em uso na estação de Lisboa Central.

De salientar que a Greve dos Correios estava integrada no movimento grevista do funcionalismo público e visava lutar contra o aumento do custo de vida. Teve lugar sobretudo entre 4 e 20 de Março de 1920, mas nalguns locais – caso de Estremoz - ultrapassou este período.

A mensagem do bilhete postal é a seguinte:

"Recebemos a sua estimada carta e as amostras. Fomos a casa de sua Ex.ma Cunhada perguntar por seu Ex.mo Marido e disseram-nos que já não estava. E como veio a greve do c. de ferro, temos estado à espera. Mas como hoje nos disseram que seguia o correio por Portalegre, rogo-lhe a fineza de dizer o que deseja que se faça.

Os nossos cumprimentos e creiam-nos sempre ao seu dispor.

Sua amiga e muito obrigada

M.ª do Carmo S. de Araujo"

O bilhete postal apresenta a marca de chegada a Estremoz no dia 26 de Março de 1920, decorridos que são 23 dias sobre a sua expedição!

 Apresenta ainda duas marcas interessantíssimas. Uma delas, batida a azul escuro, é da "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", entidade que substituiu os grevistas elvenses e que atesta o estranho itinerário seguido pelo bilhete postal: LISBOA - PORTALEGRE - ELVAS - ESTREMOZ. A outra marca, batida a azul esverdeado, é de numerador e tem o número 10 556. Pela diferença de cores entre estas duas marcas, estamos em crer que a Associação Comercial de Elvas não numerou a correspondência por si marcada e processada durante a Greve dos Correios. Inclinamo-nos mais para esse número ser um número de ordem da folha de cartolina na respectiva remessa à Casa da Moeda, local onde foi impresso o bilhete postal.

stá ainda por investigar o modo como é que a mala postal que transportava o bilhete postal foi conduzida no trajecto LISBOA-PORTALEGRE-ELVAS-ESTREMOZ. Não podemos esquecer que a rede de transporte e permuta de malas postais estava desorganizada, uma vez que também abrangia as Ambulâncias Postais Ferroviárias e que a greve dos Caminhos de Ferro foi agravada pela Greve dos Correios.

  Fazendo fé na mensagem do bilhete postal, sei que ele seguiu no combóio Lisboa-Portalegre no primeiro dia da Greve dos Correios, na qual também participaram os funcionários das Ambulâncias Postais. A consulta do mapa dos Caminhos de Ferro Portugueses dessa época permite-nos tirar duas conclusões:

- PRIMEIRA: a mala postal saída de Lisboa seguiu por Setil, Entroncamento, Abrantes, Torre das Vargens, Portalegre e Elvas;

- SEGUNDA: devido à Greve dos Caminhos de Ferro, a mala postal não seguiu em direcção a Estremoz o trajecto usual: Lisboa, Barreiro, Vendas Novas, Torre da Gadanha, Casa Branca, Évora, Estremoz.

    Concluído isto, põe-se a questão de saber quem conduziu a mala com o bilhete postal entre Elvas e Estremoz. Militares? Guarda Republicana? Recoveiros? Particulares ? Não sei. É um assunto que procurarei investigar e que se for bem sucedidos, divulgarei. Posso, porém, desde já assegurar que, de Elvas para Estremoz, o bilhete postal não seguiu pelo Caminho de Ferro, uma vez que nunca houve ligação ferroviária entre Elvas e Estremoz. Por outro lado, em 1920 não existia ainda o ramal Portalegre-Estremoz, que só foi inaugurado em 21 de Janeiro de 1949. Para além disso, só uma certeza tenho: a marca "ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE ELVAS", batida a azul escuro, é rara.

O interessante bilhete postal cujas marcas acabo de descrever, levou-me a investigar os aspectos assumidos pela Greve dos Correios em Estremoz, visando reconstituir a história local daquele período conturbado da nossa História Postal. Para o efeito socorri-me da imprensa local daquela época (os semanários "O Jornal de Estremoz" e "O Eco de Estremoz" ) e consegui fazer a cronologia da greve, a qual publiquei no “Correio do Alentejo” nº 5.

Porém, a sua apresentação aqui ultrapassa o âmbito da presente palestra.

Ao serviço da Cultura, a Filatelia pode ser um auxiliar precioso do ensino e da educação. Ao longo dos vinte anos da vida da Associação Filatélica Alentejana tive oportunidade de conduzir visitas guiadas a alunos dos Ensino Primário, Preparatório e  Secundário, acompanhados dos respectivos professores e tive oportunidade de avaliar o resultado dessas visitas relativamente à observação de colecções temáticas de História, Ciências Naturais e Pintura. Além disso, as visitas guiadas permitem apontar marcos na História do Correio em Portugal, bem como falar de técnicas de gravura, de impressão, regras de coleccionismo, etc.

Em termos históricos a Filatelia regista as mudanças de regime, as guerras, a existência de censura militar ou política, a existência de impostos, etc.

Além de tudo o que se disse, a Filatelia é sobretudo uma forma de ser e de estar na vida, de viver e conviver, fazendo permanentemente novas amizades, constituindo por isso um factor de aproximação e de amizade entre os povos e promovendo também a imagem de Portugal no mundo.

De entre as suas virtualidades, além de ser uma forma salutar de ocupar os tempos livres, é também um veículo de divulgação cultural, estética e científica, um método de terapêutica  ocupacional e um modo de incutir nas crianças e jovens, hábitos de asseio, organização e método. Em suma, a Filatelia é uma actividade formativa por excelência.

A Filatelia está também ao serviço do Turismo, pois os selos e demais fórmulas de franquia e marcas postais, permitem divulgar belezas paisagísticas, patrimónios e acontecimentos locais. Além disso, a Filatelia gera fluxos de pessoas que procuram visitar as exposições.

Quem pretenda iniciar-se na Filatelia deve procurar os conselhos de Agremiações de Filatelia, como a Associação Poveira de Coleccionismo. A Associação Filatélica Alentejana ou a Associação Nacional de Jornalistas e Escritores Filatélicos. Deve adquirir ainda catálogos e literatura filatélica - livros, jornais e revistas - que formam e informam, bem como frequentar comerciantes filatélicos e visitar Exposições. Depois disso é dar asas à imaginação e ao bom gosto e, abrir os cordões à bolsa, é claro!

Uma vez que já falámos de Correio e de Filatelia, é chegada a altura de falar em Literatura Filatélica e nada melhor que vermos como é que ela surgiu em Portugal.

A necessidade de reformar os Serviços Postais de Portugal, levou à nomeação em 15 de Outubro de 1851, de uma Comissão encarregada de estudar o assunto, a qual elaborou um Relatório que constituiu o preâmbulo do Decreto de 27 de Outubro de 1852, que lançou as bases da chamada Reforma Postal de 1852. Esta Comissão presidida por João Pinto de Magalhães, Sub-Inspector Geral dos Correios, estava longe de imaginar em toda a sua vastidão, as consequências da implementação em Portugal do uso do selo postal adesivo. O mesmo se pode dizer do Primeiro Abridor da Casa da Moeda, Francisco de Borja Freire, autor dos desenhos e dos cunhos para os primeiros selos portugueses, reproduzindo a efígie de Sua Majestade Sereníssima, a Senhora D. Maria da Gloria Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, mais conhecida por D. Maria II. Para o efeito, Borja Freire contou com o parecer esclarecido do Rei-Artista e polifacetado coleccionador, D. Fernando de Sax-Coburgo-Gota, marido de D. Maria II.

Também os tipógrafos da Casa da Moeda, a cuja manipulação por vezes deficiente da máquina de impressão, se deve o aparecimento de acidentes de impressão como duplas impressões e repintes, estavam longe de avaliar as consequências dum gesto menos preciso.

Na verdade, a entrada em circulação no dia 1 de Julho de 1853, dos primeiros selos de D. Maria II (5 r. e 25 r.), surgidos do buril admirável de Borja Freire, fizeram surgir entre nós aquilo que mais tarde se convencionou chamar de “filatelistas” ou cultores da “Filatelia”, na sequência da adopção nada pacífica do termo proposto em 1864, pelo francês Herpin, para designar os “amigos da franquia”.

Com o coleccionismo filatélico surgem também as primeiras publicações periódicas, primeiramente órgãos de comerciantes e depois também de clubes filatélicos. A publicação periódica mais antiga é “O Philatelista”, Órgão do Centro Filatélico Português, de que era Director Faustino António Martins e com Redacção na Praça Luiz de Camões, nº 35, em Lisboa, o qual se começou a publicar em 1888.

Nas publicações periódicas surgem artigos de estudo sobre as emissões. Os primeiros estudos sobre selos portugueses devem-se a  J. N. Marsden (in Stamp News Anual-1892), Dr. Henrique Anachoreta (in Bulletin trimestral de La Societé Lausanoise de Timbriologie-1896), O. Wasserman in Deutsche Briefmarken Zeitung – 1900) e M.P. Castle (In London Philatelist – 1901).

Por vezes, os estudos pela sua dimensão e importância dão origem a publicações filatélicas que se autonomizam sob a forma de livros. O primeiro livro filatélico português terá sido o “Guia do Philatelista”, dado à estampa em 1895, pelo autor, o portuense Alfredo de Faria.

De resto, muito cedo surgiu a necessidade de publicar catálogos de selos que inventariassem emissões, variedades e erros, os quais iam surgindo no processo de fabrico, o que para os filatelistas tinha o aliciante de não estar normalizado como hoje. O primeiro catálogo de selos postais foi editado em 1894 por Faustino António Martins, seguindo-se-lhe em 1895 o catálogo de Taborda Ramos, redigido em francês e que descreve os selos de Portugal emitidos até então, com as diferentes variedades de denteado, papéis, etc. Só muito posteriormente surgiriam outros catálogos: Myre (1910), Simões Ferreira (1918) e Eládio de Santos (1940).

Por outro lado, com a realização de exposições filatélicas, passou a ser editado um novo tipo de publicações a que se convencionou chamar catálogos de exposições. Este tipo de publicações teve início com o “Catálogo da 1ª Exposição Filatélica Portuguesa (Lisboa-1935)”, seguindo-se-lhe o ”Catálogo da 2ª Exposição Filatélica Portuguesa (Lisboa-1940)”, “Catálogo da EXFIPO (Lisboa-1944)” e  “Catálogo da 1ª Bepex (Porto-1944) .

Igualmente as necessidades do próprio mercado filatélico levaram à criação de catálogos de leilões. Remontam a 1939 os primeiros catálogos de leilões de selos de que temos conhecimento. Havia um, chamado “Leilões de Selos”, organizado por Augusto Molder e Direcção de Henrique Mantero, com Redacção na Rua da Madalena, 182-2º, em Lisboa e cujo primeiro número saiu em 1939. Também em 1939 sai outro catálogo, chamado “Leilões de selos para colecções”, com Direcção de Luís de Sá Nogueira e com Redacção na Rua Gonçalves Crespo, 41 – 1º D, em Lisboa.

Esta é, resumidamente, a génese, entre nós, daquilo a que se convencionou designar por “Literatura Filatélica”, mais tarde tornada uma classe FIP, em cujo artigo 2 do SREV, se estabelece que: “A Literatura Filatélica compreende todas as comunicações impressas ao dispor dos coleccionadores relativas a selos postais, história postal e seu coleccionismo”.

Em termos práticos, poderemos dizer que a literatura filatélica abrange manuais, monografias, artigos de pesquisa, bibliografias, catálogos de exposições, catálogos especializados, catálogos gerais, periódicos filatélicos, artigos gerais, etc. O suporte poderá ser impresso ou não (CD’s, DVD’s, vídeos, páginas web, etc). Porém, a comunicação deve ser relativa a qualquer das classes filatélicas aceites (Filatelia Tradicional, Filatelia Temática, Aero-Filatelia, Astro-Filatelia, História Postal, Inteiros Postais, Maximafilia, Filatelia Juvenil, Literatura Filatélica e Selos Fiscais).

A Literatura filatélica suscita uma problemática diversificada, que se pode, porém, agrupar em dois tipos principais. Por um lado, a problemática que tem a ver com a génese do próprio acto de criação literária e respectivas consequências. Por outro lado, a problemática suscitada pela participação da Literatura na competição filatélica.

A ANJEF, tem sobretudo a ver com a génese do próprio acto de criação literária e respectivas consequências e tem entre outros os seguintes objectivos: “­Congregar os jornalistas, os escritores filatélicos e a imprensa filatélica portuguesa e defender os seus interesses; Velar pela difusão de uma informação honesta e verdadeira; Defender a ho­nestidade e a integridade da filatelia contra as falsificações, as especulações, as emissões abusivas e tudo o que possa ser nocivo à filatelia; Incentivar a edição de originais de trabalhos de estudo investigação filatélica de interesse reconhecido; ‑ Procurar facilidades editoriais para os seus membros; Revalorizar a literatura filatélica nas exposições; Promover seminários de literatura fila­télica.”

Editamos quadrimestralmente a revista “Convenção Filatélica”, que tem como director o Vice-Presidente da ANJEF, Engº José Manuel Miranda da Mota, prestigiado Escritor e Jornalista Filatélico, bem como Jurado de Literatura do Quadro da FPF-APD. Na nossa revista praticamos um jornalismo pautado pelos princípios da liberdade, do pluralismo e da independência, regido por critérios jornalísticos de rigor, isenção e objectividade, no respeito pelos direitos, liberdades e garantias consignados na Constituição da República. De resto, o respeito pela Lei de Imprensa e pelo Código Deontológico dos Jornalistas, é entre nós uma constante. Pugnamos, de resto, para que algumas revistas filatélicas deixem de ser palco de agressões verbais a pessoas e passem a ser cada vez mais o reflexo da capacidade de investigação e estudo do seu corpo redactorial. Isto, sob o ponto de vista de conteúdos e de doutrina filatélica. De resto, outros aspectos igualmente importantes não foram descurados. Caso do grafismo da revista. Na verdade, a Convenção Filatélica é um extraordinário projecto gráfico do arquitecto Gil Maia, professor da ESEP, cuja mão está sempre presente em cada número da revista. O arquitecto Gil Maia, através da sua competência é, desde a primeira hora o responsável pela imagem de marca da Convenção Filatélica.

Vejamos de seguida, a outra vertente da Literatura Filatélica, que tem a ver com o aspecto competitivo.

A Literatura Filatélica ao participar em exposições competitivas está submetida como classe filatélica, à regulamentação da Federação Internacional de Filatelia (SREV, normas e directrizes) e como tal deve ser avaliada por um Júri, de acordo com os seguintes critérios e exigências:

 

CRITÉRIOS

EXIGÊNCIA

PONTOS

Tratamento do assunto

Apreciação do estilo literário, clareza e facilidade de comunicação, revelados na participação.