Hernâni Matos

Inteiros Postais de Portugal

Retrospectiva de 50 anos de Literatura Filatélica Portuguesa

 

Todas as grandes religiões têm um Supremo Guardião do Templo. No caso da Literatura Filatélica Portuguesa, chama-se Eduardo Sousa. A ele, o muito obrigado dum mouro de Além-Tejo, que desterrado em Agosto, no termo de Varazim de Juzão, pôde contar com a sua biblioteca e arquivo pessoal, para dela colher dados factuais, credíveis, que lhe permitissem cimentar meia dúzia de ideias caldeadas no seu calcorrear filatélico-literário.

 

Hernâni Matos

anjefportugal@hotmail.com

 

 

 

 

Em artigo anterior [i] efectuámos uma retrospectiva generalista e simplificada do que foi a actividade filatélico-literária desde os primórdios da Filatelia Portuguesa, até ao ano de 2003. O facto de no presente ano a Federação Portuguesa de Filatelia comemorar os 50 anos da sua fundação, é motivo mais que suficiente para que procuremos efectuar agora e aqui, uma retrospectiva com aquelas características, mas desta feita abrangendo o período de vida da Federação.

As publicações periódicas

Em 50 anos muita coisa acontece. A nível de publicações periódicas inventariámos a saída de 60 títulos neste período. A esmagadora maioria cessou a publicação, fruto dos contextos mais diversos [ii]. Sem desprimor para as demais, registemos aqui o título de algumas que nos parecem merecer especial referência: São Gabriel (1956-1977), Jornal Notícias Filatélico (1966 – 1975), Mercado Filatélico (1970-1971), Franquia (1974-1979), Estampilha e Vintém (1978-1982), F. N.- Filatelia e Numismática (1981-1993), A Filatelia (1985-1992), Correio de Alentejo (1985-1999), O Timbre (1989-2003), Mensageiro Filatélico (1997-2001).

É sabido que a imprensa periódica dos Clubes desempenha um papel importante como fonte de informação e formação, principalmente para aqueles que dispondo de menor cultura filatélica, com a sua leitura vêem aumentados os seus conhecimentos. Daí que seja sempre preocupante o desaparecimento de publicações periódicas de Clubes.

Editadas em 2004 e que nos tenham chegado às mãos, registamos apenas as seguintes publicações periódicas filatélicas: A Filatelia Portuguesa, Boletim do Clube Filatélico de Portugal, Convenção Filatélica, Filatelia Lusitana, Portu - Info e Portuguese Philatelic Society .

Os livros

Portugal é um país de brandos costumes. Daí que se possa dar ao luxo de que, apesar de ter uma mão cheia de pesos-pesados [iii] que escrevem com regularidade em publicações periódicas, nem todos se abalançam [iv] a escrever livros. A edição destes é escassa, tanto mais que existe uma ausência quase total de Editoras que invistam em obras filatélicas e poucos são os autores que estão dispostos a correr os riscos de edição, embora haja excepções. De resto, no que respeita a financiamento de livros, reconhecemos nestes últimos 50 anos a existência de edições de autor e de edições financiadas (por Comerciantes de Selos, pelos Correios, por Clubes Filatélicos, por Fundações, por Exposições Filatélicas, por Câmara Municipais e por Editoras Comerciais).

Em 50 anos, foram dados à estampa cerca de 300 títulos de obras filatélicas, número este que recebeu um farto contributo da Filatelia Tradicional e da História Postal, habitualmente consideradas a “nata” da Filatelia. Daí não ser despropositado que, sem menosprezar as demais classes filatélicas onde outras obras se inserem, os 50 anos de que vimos tratando, ficarão marcados pela publicação de obras que pela qualidade, profundidade, oportunidade e pertinência da investigação nelas desenvolvida e posta à disposição do público, constituem marcos de referência e de excelência que se impõe assinalar. São elas:

-        História do Selo Postal Português (1853-1953) -  A. H. de Oliveira Marques (1954);

-        Inteiros Postais de Portugal e Ilhas Adjacentes -  José da Cunha Lamas (1969);

-        Selos Clássicos de Relevo de Portugal - Armando Mário de Oliveira Vieira (1983);

-        Catálogo de Inteiros Postais Portugueses – 1º e 2º Volumes - José da Cunha Lamas e A.H. de Oliveira Marques (1985);

-        Marcas Postais Pré-Adesivas de Portugal - Guedes de Magalhães e M. de Andrade e Sousa (1989);

-        Portugal CERES – Variedades de Cliché. - J. M. Miranda da Mota e Armando Mário O. Vieira. (1992),

-        História e Desenvolvimento dos Correios e das Telecomunicações de Macau, Vol. I – do Correio Marítimo ao Início do Período Adesivo (1798-1884) - Luís Virgílio de Brito Frazão. (2001);

Os catálogos de emissões

Já dissemos em artigo anterior[v], que o primeiro catálogo de selos foi editado em 1894 por Faustino António Martins. Na primeira metade do século XX outros catálogos surgiram, merecendo especial referência os catálogos “Eládio de Santos” e “Simões Ferreira”, que acabariam por deixar de se publicar no período a que refere o presente artigo. Surgiu em contrapartida o “Catálogo do Núcleo Filatélico do Ateneu Comercial do Porto”, que se viria a transformar em catálogo “Afinsa”, rico de conteúdo informativo e de grande qualidade gráfica. Estes catálogos entroncam no Catálogo Simões Ferreira cuja orientação era da responsabilidade duma comissão de filatelistas de nomeada, entre eles Armando Vieira, o qual transitou para a Comissão do Catálogo do Ateneu e depois para o Catálogo da Afinsa. Por isso, achamos que seria de bom tom que a habitual nota prévia que antecede estes catálogos, contivesse o nome daqueles que desde o Catálogo Simões Ferreira até à actualidade, contribuíram para que o catálogo Afinsa, o único existente neste momento, fosse uma realidade. Eis os seus nomes: Albertino Figueiredo, Alexandre Guedes de Magalhães, António Correia Júnior, Armando Vieira, David Gordon, Domingos Portugal, Ernesto Rangel, Gabriel Serpa Magalhães, George Pearson, Hernani Viegas, J. Miranda da Mota, Joaquim Leote, José Ribeiro Nogueira, Mário Basto, Stephan Washburne e Vitorino Dória. Que me seja desculpada qualquer eventual omissão, porque involuntária.

Os catálogos de leilões

Dissemos em artigo anterior[vi] que os catálogos de leilões remontam a 1939. No período a quer se refere o presente artigo merecem especial destaque os catálogos de Leilões do Ateneu Comercial do Porto[vii], de Paulo Dias[viii], de Afinsa[ix], de João Pedro Figueiredo[x] e do Clube Filatélico de Portugal[xi].

Os catálogos, inicialmente incipientes no seu grafismo, acompanham o desenvolvimento acelerado das artes gráficas, bem como as necessidades de mercado. As descrições das peças foram-se tornando cada vez mais rigorosas e a sua reprodução efectuada cada vez em maior número, sendo a tendência lógica a reprodução de todas as peças.

Inicialmente impressos a preto e branco, reproduzem agora as peças a cores, em tamanho adequado e nalguns casos já sem sobreposições. A qualidade de reprodução das peças chega mesmo a ser fascinante. O país filatélico merece leilões de qualidade e por isso está de parabéns, tal como os leiloeiros.

Merecem especial referência os catálogos: Ângelo Lima Collection – Afinsa Auctions (1995), Colecção Ceres / John Sussex – Leilões Paulo Dias (1996) e António Felino Collection – Afinsa Auctions (1998).

Os web sites

Os web sites de conteúdo filatélico surgiram entre nós há meia dúzia de anos e constituem uma forma específica de Literatura Filatélica, equiparável a uma revista sempre disponível para ser lida instantaneamente, mas com um público potencial mais vasto, dada a globalidade da distribuição de informação. Os web sites de conteúdo filatélico não substituem a Filatelia, porque essa há de eternamente ser feita de álbuns, pinças e lupas, para não falar dos demais acessórios filatélicos. Os web sites de conteúdo filatélico, potenciam sim a Literatura Filatélica, a qual apesar de ser uma classe filatélica como as outras, tem o valor acrescido de ser indispensável ao fomento, à didáctica e ao desenvolvimento das demais.

Os web sites dedicados à Filatelia Portuguesa e por nós identificados, podem ser agrupados por categorias: Agremiações Filatélicas (16), Comerciantes Filatélicos  (13), Filatelistas (23), Portais Filatélicos (3), Correios (2), Catálogos de Emissões  (3), Livros Digitais (3) e Revistas na Internet  (1).

A criação da ANJEF

O diagnóstico da situação da Literatura Filatélica Portuguesa, efectuado em 1999 pelo Delegado da Federação Portuguesa de Filatelia à Comissão FIP de Literatura Filatélica, levou à conclusão de que o desempenho da função de Jornalista e de Escritor Filatélico poderia ser valorizado através da constituição de uma Associação cuja necessidade de criação vinha sendo sentida pela classe. Daí que na sequência de intenso e participado trabalho preparatório, tenha sido fundada em 2001, a ANJEF – Associação Nacional de Jornalistas e de Escritores Filatélicos. Esta tem entre outros os seguintes objectivos: “­Congregar os jornalistas, os escritores filatélicos e a imprensa filatélica portuguesa e defender os seus interesses; Velar pela difusão de uma informação honesta e verdadeira; Defender a ho­nestidade e a integridade da Filatelia contra as falsificações, as especulações, as emissões abusivas e tudo o que possa ser nocivo à Filatelia; Incentivar a edição de originais de trabalhos de estudo investigação filatélica de interesse reconhecido; Procurar facilidades editoriais para os seus membros; Revalorizar a Literatura filatélica nas exposições; Promover seminários de Literatura fila­télica.”

A ANJEF edita quadrimestralmente a revista “Convenção Filatélica”, mantém um página web de Literatura Filatélica no endereço http://www.anjef.com e tem promovido Salões de Literatura Filatélica.

Os Prémios de Literatura Filatélica

Visando promover o desenvolvimento da Literatura Filatélica Portuguesa e incentivar a produção filatélico-literária por parte de escritores, publicistas e jornalistas filatélicos portugueses ou estrangeiros que se dediquem à Filatelia Portuguesa, a Direcção da Federação Portuguesa de Filatelia deliberou em 1989, instituir Prémios de Literatura Filatélica, a atribuir mediante concurso, a obras e publicações de índole filatélica. Actualmente, os prémios são os seguintes:

a)    Prémio “GODOFREDO FERREIRA”, para o melhor livro, encarado como obra unitária, dedicada à Filatelia em geral ou a uma ou mais das suas disciplinas sob a forma de estudo, manual ou monografia;

b)    Prémio “O PHILATELISTA”, para o melhor periódico (jornal, revista, boletim), com edição regular, editado por entidade sem fins lucrativos;

c)    Prémio “A GUEDES DE MAGALHÃES” para o melhor autor, destinado a contemplar a actividade de publicista filatélico, traduzida por estudos, trabalhos de investigação ou de pesquisa ou matéria de interesse geral para a Filatelia, publicados numa ou mais das publicações sob a forma de artigos, crónicas, etc, e que não possa ser abrangidos pela classificação de “livro” e não sejam publicados sob esta forma.

d)    Prémio “CARLOS TRINCÃO” para outras obras não incluídas nos três números anteriores.

e)    Prémio “ANÍBAL QUEIROGA para o melhor web site de Filatelia.   

A entrega dos prémios anuais de Literatura da Federação Portuguesa de Filatelia é feita anualmente durante as Comemorações do Dia do Selo

Também a Direcção da Associação Filatélica Alentejana, desejando contribuir para o reconhecimento público de filatelistas de nomeada, resolveu instituir anualmente, o Troféu A.F.A.,

 o qual distingue filatelistas de grande projecção, de nacionalidade portuguesa, que pela sua acção pessoal, tenham prestado serviços relevantes à Filatelia Portuguesa, contribuindo para o seu desenvolvimento em Portugal e no Estrangeiro. A atribuição do prémio é feita desde 1989 e na base da sua atribuição, a cargo do Conselho dos Prémios A.F.A., tem tido forte peso a actividade filatélico-literária do premiado.

Mais recentemente e por determinação da sua Assembleia Geral, a ANJEF criou prémios de mérito filatélico - literário, a atribuir anualmente a partir do presente ano e destinados a incentivar a produção filatélico -literária, na perspectiva estratégica de promover o desenvolvimento da Literatura Filatélica Portuguesa. Os prémios criados foram os seguintes:

a)    Prémio "ARMANDO VIEIRA", para a melhor publicação de Filatelia Tradicional;

b)    Prémio "ANTÓNIO FRAGOSO”, para a melhor publicação de História Postal;

c)    Prémio "AMÉRICO MASCARENHAS PEREIRA", para a melhor publicação de Inteiros Postais;

d)    Prémio “HELDER TORRES”, para a melhor publicação de AeroFilatelia ou de AstroFilatelia;

e)    Prémio "FERNANDO CARRÃO" para a melhor publicação de Filatelia Temática ou de Classe Aberta;

f)      Prémio “ANTÓNIO FURTADO” para a melhor publicação de Maximafilia;

Não temos dúvida que a atribuição de Prémios de Literatura, enquanto forma de reconhecimento do mérito, constitui um poderoso estímulo moral, incentivador da produção filatélico-literária..

Epílogo

Estamos a lembrar-nos da história do copo com líquido, do qual um homem algo pessimista dizia que estava meio-cheio, ao passo que outro, mais optimista, argumentava que o copo estava meio-vazio. Vem esta invocação a propósito da situação da Literatura Filatélica Portuguesa. É que nestes últimos cinquenta anos, muito foi feito em prol do desenvolvimento da Literatura Filatélica Portuguesa. Mas convenhamos que, outro tanto há ainda a fazer. E não podemos esperar outros cinquenta anos, porque essa espera pode ser a morte da nossa Dama. Por isso, há que encontrar capacidade para obter resposta a questões como:

- À semelhança dos dinossauros, está a Literatura Filatélica condenada à extinção?

- Ou, pelo contrário, a Literatura Filatélica tem hipóteses de sobrevivência?

- Como envolver o mercado nessa sobrevivência através da concessão de publicidade?

- Porque é que institucionalmente só os Correios subsidiam a Filatelia e em particular a Literatura Filatélica?

- Se Filatelia é Cultura, porque é que o Ministério da Cultura não subsidia a Filatelia e com ela a Literatura Filatélica, tal como subsidia a Música, o Teatro e o Cinema?

- É preciso que os clubes se envolvam em actividades para-filatélicas lucrativas para que a Literatura Filatélica seja auto-sustentável?

- Etc….

São muitas perguntas a exigir a nossa resposta.

 

Póvoa de Varzim, aos 30 de Agosto de 2004

 


[i] Retrospectiva de 150 anos de Literatura Filatélica Portuguesa, in Catálogo da Lubrapex 2003, Lisboa, 19 a 28 de Setembro de 2003.

[ii] Os quais nos dispensamos daqui analisar caso a caso. Mas os custos de produção e os portes não são concerteza estranhos à maioria dos casos de extinção de publicações. O problema de financiamento das publicações é, de resto, um autêntico quebra-cabeças para os dirigentes filatélicos.

[iii] Adelino Caravela, Bordalo Sanches, Elder Correia, João Soeiro, Joaquim Leote, Lage Cardoso, Lemos da Silveira, Luís Frazão, Miranda da Mota, Oliveira Pinto e Vaz Pereira.

[iv] Decerto que pelos mais respeitáveis motivos.

[v] Vide nota nº I.

[vi] Idem,

[vii] Que se realizaram entre 1983 e 2004, com uma equipa de composição variável liderada por Armando Vieira e que não resistiram à sua morte.

[viii] Iniciados em 1992.

[ix] Que surgem praticamente com a implantação desta empresa em Portugal.

[x] Surgidos em 2004.

[xi] Só para o leilão de Outubro de 2004 é que o CFP edita um catálogo digno desse nome e com bastante qualidade, pois os leilões já vêm de trás.

 

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